PIB minguante

Celso Ming

28 de junho de 2012 | 20h00

Nesta quinta-feira, o Banco Central anunciou no seu Relatório de Inflação que refez suas projeções de crescimento do PIB para este ano. Não será mais de 3,5%, como avaliara no início do ano, mas de 2,5%.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve estar aborrecido com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, porque esses números há meses não se afinam com os do Ministério da Fazenda.

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Tombini. Menos crescimento (FOTO: FABIO MOTTA/AE)

Quando, em março, o Banco Central avisou que esperava um avanço do PIB neste ano de somente 3,5%, Mantega apostava todas as suas fichas em alguma coisa entre 4,5% e 5,0%. A título de explicação para essas diferenças, afirmou que sabia projetar esses números bem melhor do que o Banco Central.

Na semana passada, o Credit Suisse avisou seus clientes que seus cálculos não apontavam um crescimento em 2012 superior a 1,5%. Mantega declarou que esse número não passava de “uma piada”.

Há dez dias, o mercado indicava pela Pesquisa Focus, do Banco Central, que já trabalhava com um crescimento do PIB de 2,30%. Provavelmente, a edição desse boletim na próxima segunda-feira acusará projeção ainda mais baixa. Nesta quinta-feira, a Fiesp divulgou suas novas projeções, entre as quais a de um aumento do PIB de apenas 1,8%. Ou seja, estão todos bem mais próximos da piada do Credit Suisse do que dos números mágicos do ministro.

Mas a questão mais importante não são as eventuais diferenças nas projeções. É examinar por que o setor produtivo avança devagar-quase-parando enquanto o consumo cresce entre 5,0% e 6,0%.

Como esta Coluna já apontou na edição de quarta-feira, o governo agora tende a descarregar o resultado insatisfatório do PIB sobre a crise externa: o empresário está com medo e vai desacelerando, argumenta o governo. Não dá para negar esse efeito. A perda de confiança é trava a levar em conta. Outro fator, também já apontado aqui, é a política excessivamente intervencionista do governo: o empresário não aciona seu espírito animal porque fica esperando mais favores do governo.

Mas há um terceiro fator, mais profundo e de ação mais duradoura. Esta crise mostrou ao industrial que, por mais brilhante que seja, a empresa dele não é competitiva. Se pisar no acelerador e aumentar os investimentos, corre sério risco de perder dinheiro.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, vem explicando que até mesmo a indústria mais moderna do mundo instalada no Brasil não tem mais como competir com o setor produtivo de outras partes do mundo, porque enfrenta custos insuportáveis do portão da fábrica para fora.

Nesta quinta-feira, em palestra no Congresso Brasileiro do Aço, realizado em São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca argumentava que o investimento siderúrgico no Brasil não sai por menos de US$ 1,8 mil por tonelada de capacidade. Enquanto isso, na Índia sai por US$ 1 mil e na China, por US$ 550. Nessas condições, quem é o maluco que vai pôr dinheiro na produção de aço no Brasil?

O governo Dilma entendia que bastaria derrubar os juros, puxar as cotações do dólar e espremer os bancos para que baixassem os juros para que o PIB disparasse. Não é o que está acontecendo. A maior parte dos estímulos foi concedida ao consumo: os salários foram esticados e o crédito foi encorajado. No entanto, o setor produtivo vai afundando nos custos – no custo Brasil. O pessoal da Fiesp chama a isso de desindustrialização.

CONFIRA

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Na tabela, as últimas projeções do Banco Central para o PIB 2012, de acordo com o Relatório Trimestral de Inflação publicado nesta quinta-feira.

Mesma meta. Nesta quinta-feira, o Conselho Monetário Nacional fixou em 4,5% a meta de inflação de 2014. A meta não muda desde 2006. E, no entanto, esta poderia ser excelente oportunidade para uma redução em pelo menos meio ponto porcentual. Quando aparecerá uma conjuntura melhor para esse objetivo do que esta?

Mão de obra cara. O Relatório voltou a reconhecer que o mercado de trabalho está aquecido e que, nessas condições, é fator que trabalha contra o controle da inflação.