Piso para o câmbio

Piso para o câmbio

Celso Ming

21 de agosto de 2012 | 20h00

O Banco Central voltou nesta terça-feira a comprar moeda estrangeira no mercado futuro porque as cotações ameaçavam resvalar para abaixo de R$ 2 por dólar.

Aparentemente, a operação não foi o sucesso esperado. Dos 50 mil contratos oferecidos ao mercado, só foram fechados 7 mil e, logo em seguida, os preços do dólar voltaram a cair. Mas o que importa aí não é o vaivém das cotações; é a atitude do Banco Central e suas consequências.

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Mantega. Puxar o dólar (FOTO: DIDA SAMPAIO/AE)

Desde maio deste ano, sempre que a oferta de moeda estrangeira no câmbio interno tende a empurrar as cotações para abaixo dos R$ 2, o Banco Central intervém ou por meio de compras de moeda estrangeira no mercado à vista ou no mercado futuro, como nesta terça-feira, para impedir nova valorização do real.

O que nesta terça pela manhã firmara tendência de baixa do câmbio não foi nem sequer uma grande entrada de dólares no País. Foi somente a percepção de que a economia mundial pode ser beneficiada nas próximas semanas com novas injeções de euros nos mercados em consequência de emissões realizadas pelo Banco Central Europeu (BCE). Também se reforçou a aposta de que, apesar dos desmentidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) opte por novas recompras de títulos do Tesouro dos Estados Unidos com o objetivo de reativar a economia.

Há duas semanas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, observou que a principal medida de política cambial tomada pelo governo Dilma para desvalorizar o real (aumentar a cotação do dólar para devolver competitividade à indústria) foi de natureza monetária; foi a derrubada dos juros promovida desde agosto de 2011 pelo Banco Central.

Com isso, Mantega avisou que a política de juros do Banco Central não vem sendo usada apenas para empurrar a inflação para dentro da meta (de 4,5% neste ano), mas, principalmente, para evitar as chamadas operações de arbitragem feitas pelos especuladores que tomam dólares emprestados no mercado internacional, trazem os recursos para o Brasil e aqui ganham com a diferença de juros e, nesse jogo, derrubam as cotações no câmbio.

Se a política de juros fosse suficiente para manter afastados os especuladores e segurar o dólar à altura dos R$ 2, o Banco Central não precisaria intervir. Mas interveio.

E, no entanto, nada de especialmente novo aconteceu nesta terça-feira nos mercados cambiais que repetisse o tsunami monetário de que a presidente Dilma tanto se queixou há alguns meses.

O que tem de ser levado em conta é que, apesar do desestímulo às operações de arbitragem com juros e da sistemática intervenção do Banco Central, a tendência do câmbio continua sendo de valorização do real (baixa do dólar). Para isso, não é preciso nem sequer que esteja a caminho uma solução definitiva para a crise. Basta que os mercados fiquem mais otimistas em relação à evolução da economia global.

A longo prazo, o Banco Central não pode alterar uma tendência firme do câmbio. Para garantir competitividade ao setor produtivo, a economia brasileira não poderá contar só com redução dos juros e com intervenções do Banco Central. É necessário aprofundar o que a presidente Dilma começou a fazer: derrubar os custos de produção no Brasil.

CONFIRA

No gráfico, a evolução do câmbio em 2012. No período de 12 meses até esta terça, a alta foi de 26,14%. A acumulada em 2012 é de 7,92%. Mas, em agosto, a baixa é de 1,47%.

Fica para depois. Nesta terça-feira, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, negou que houvesse negociações com o governo para reajustar os preços dos combustíveis. E, no entanto, tanto o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, como o da Fazenda, Guido Mantega, já admitiram os reajustes. A falta de negociações não significa que não saiam. É mais uma indicação de que o governo deixará para tratar do assunto apenas depois das eleições.