Pressão sobre a China

Celso Ming

26 de setembro de 2010 | 13h27

Há boas razões para acreditar em que uma forte desvalorização do yuan, a moeda chinesa, não resolveria os graves problemas da economia dos Estados Unidos. Mas, nessa área, os fatores políticos ameaçam tomar o espaço dos fatores macroeconômicos.

Sexta-feira, o Comitê de Meios e Recursos da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou um projeto de lei que impõe punições tarifárias sobre importações provenientes da China e de países cuja moeda vier a ser considerada “artificialmente valorizada”.

Primeiro, convém situar resumidamente o problema em seu contexto e, depois, examinar por que a solução proposta pode falhar.

O yuan (também chamado renminbi) está atrelado ao dólar como um carrapato. Se as cotações do dólar sobem, as do yuan sobem junto; se caem, caem também. Isso se consegue por meio da atuação disciplinada do Banco do Povo da China, o banco central. Se sobram dólares em consequência do aumento das exportações, o banco central os recompra; se faltam, está pronto a garantir a oferta. No momento, o objetivo é trocar moeda estrangeira a 6,705 yuans por dólar.

Há anos, o governo americano pressiona Pequim para desatrelar o câmbio porque entende que, a essa cotação, o yuan está entre 20% e 25% desvalorizado e isso barateia as exportações chinesas, alijando o produto americano dos mercados. O calo que mais dói é o desemprego.

A crise e a deterioração das contas dos Estados Unidos levaram o governo a aumentar as pressões para revalorizar o yuan. Na última quinta-feira, o presidente Barack Obama se reuniu com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o principal tema da conversa foi, outra vez, o yuan. Obama saiu do encontro dizendo que os dois países precisam de discussões francas. Seus assessores foram além, espalharam que Obama colocou Wen “contra as cordas” e exigiu “ação para desvalorizar o yuan antes que o governo dos Estados Unidos seja obrigado a acionar os mecanismos de que dispõe para defender seus interesses”.

Do ponto de vista técnico, a valorização do yuan não necessariamente produziria o efeito desejado pelos Estados Unidos, que seria a reativação das exportações e da economia. As exportações do Japão para os Estados Unidos, por exemplo, haviam atingido US$ 94 bilhões em 1985 e saltaram para US$ 108 bilhões em 1987. Foi então que o governo americano arrancou medidas de valorização do iene. O resultado prático foi insignificante. Aparelhos Sony e veículos Toyota e Honda continuaram a entrar como entravam antes nos Estados Unidos, porque os japoneses compensaram com redução ainda maior de custos o efeito do câmbio sobre o preço em dólares de suas exportações. A China poderia perfeitamente fazer o mesmo.

Há mais razões para duvidar de uma virada do jogo. Uma delas é a de que a maioria das grandes empresas dos Estados Unidos também opera na China e de lá exporta produtos made in China para o resto do mundo. O eventual impacto negativo de uma valorização do yuan também enfraqueceria os resultados das empresas americanas que estão por lá.

Outra razão: os Estados Unidos não importam produtos baratos apenas da China. Se a alta do yuan reduzisse as exportações chinesas para os Estados Unidos, outros países asiáticos (como Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia, Índia, Filipinas e Vietnã) ocupariam o vazio. Mais ainda, uma lista enorme de produtos são apenas montados na China. Seus componentes vêm de países que podem passar a montar o que já produzem.

E, finalmente, não dá para desprezar o volume de exportações dos Estados Unidos para a China, cerca de US$ 87 bilhões neste ano, que acabaria sendo prejudicado por uma eventual guerra comercial.

O problema técnico está contaminado por alta dose de emoção. Cada vez mais os políticos dos Estados Unidos acusam a China de tirar mercado de trabalho dos americanos com manipulação do câmbio. E, quando as coisas tomam esse rumo, fica complicado encontrar uma saída.

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