Pressão sobre a China

Celso Ming

11 de fevereiro de 2010 | 20h07

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, avisou nesta quinta que vai ter uma negociação dura com o governo da China para arrancar uma valorização de sua moeda, o yuan:

“Meu objetivo neste ano é o de levar a China a reconhecer que é do seu próprio interesse deixar que a moeda se valorize porque, francamente, eles estão com a economia potencialmente superaquecida”, disse à  Bloomberg.

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Há algumas razões para acreditar que esse projeto está mais para o que os ingleses chamam de wishful thinking; ou seja, é mais um desejo do que um plano com ampla possibilidade de sucesso.

Os Estados Unidos têm um problema. Precisam puxar pelo crescimento econômico para garantir o aumento do emprego. Como o americano médio está endividado, um dos caminhos é expandir as exportações. Mas aí há dois quase intransponíveis obstáculos: a China exporta mais e mais barato; e o resto do mundo está em recessão, com pouco apetite para importar.

Num ponto o governo americano tem razão. Não adianta partir para um ajuste unilateral, permitindo a desvalorização do dólar, porque o yuan tem preço fixo à proporção de 6,83 yuans por dólar.

Quando o aumento da oferta de dólares tende a puxar o câmbio, o Banco do Povo da China (banco central) se encarrega de garantir compras a essa cotação.

Esse sistema de câmbio é um barco amarrado a um navio. Esteja como estiver a maré, o yuan acompanha a flutuação do dólar.

O problema é que entra governo sai governo, os Estados Unidos há mais de dez anos tentam consertar os rombos de sua economia por meio da valorização do yuan e, no entanto, nunca conseguem convencer Pequim a valorizar sua moeda.

O argumento do presidente Obama de que a economia chinesa está aquecida demais e que por isso tem de reduzir suas exportações de maneira a evitar a inflação fraqueja num ponto essencial: o de que o mesmo efeito poderia ser obtido por meio da redução do consumo interno. Para isso, aparentemente bastaria que o governo chinês contivesse a expansão do crédito interno, como o primeiro-ministro Wen Jiabao já indicou que faria.

A principal razão pela qual a China pode se dar ao luxo de dizer não aos Estados Unidos é o fato de que dispõe de uma poupança interna de 51% do PIB. Essa é a fonte de munição com a qual o banco central segue comprando os dólares que sobram no seu balanço de pagamentos.

É claro que esse jogo não pode seguir para sempre porque as reservas já chegaram a US$ 2,4 trilhões, a China é o maior detentor mundial de títulos do Tesouro americano e o banco central do país não pode seguir acumulando reservas indefinidamente.

Mas isso não é tudo. O governo dos Estados Unidos precisa de que o banco central chinês continue comprando títulos do seu Tesouro com os dólares provenientes dos superávits comerciais porque a dívida americana está nos 65,2% do PIB, ameaçando saltar para 70,0%, e o Tesouro precisa de que continue a haver tomadores para seus títulos.

A relação simbiótica entre Estados Unidos e China é o fulcro de um dos maiores desequilíbrios da economia mundial, mas, decididamente, não será com pressão sobre o governo chinês e com a valorização do yuan que as distorções serão corrigidas.

Confira

As reservas da China correspondem hoje a 50% do seu PIB e ao dobro das suas exportações ao longo de um ano. Em novembro de 2009, US$ 790 bilhões das reservas estavam em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

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