Qual é o dever de casa?

Qual é o dever de casa?

A presidente Dilma tinha um plano claro de como ganhar as eleições, mas até agora não disse ou não sabe como atacar o problema imediato da economia, a estagnação

Celso Ming

10 de novembro de 2014 | 21h00

A presidente Dilma tinha um plano claro de como ganhar as eleições, mas até agora não disse ou não sabe como atacar o problema imediato da economia, a estagnação. O máximo que avançou foi avisar que fará “o dever de casa”, como declarou na entrevista que deu à Imprensa na última quinta-feira.

Não é preciso ser Ph.D. em Economia para entender que a estagnação é um multiplicador de deformações. Sem crescimento econômico, não há aumento da arrecadação e, sem esse aumento, todas as encrencas se agravam: as contas públicas entram em parafuso, como acontece agora, e o investimento é adiado. Também em consequência da prostração, a oferta de mercadorias e serviços fica muito para trás do consumo, as importações são pressionadas para suprir a falta de produção interna e o rombo das contas externas tende a alargar-se. Tudo isso derruba ainda mais a confiança. E o enorme círculo vicioso gira com mais força.

DILMA / ENTREVISTA

 Dilma. Qual é a direção? (Foto: ANDRE DUSEK/ESTADÃO)

Não é apenas a presidente Dilma que não consegue avançar o que pretende. O desencontro do que vêm dizendo as autoridades também sugere que o governo ainda não sabe o que atacar primeiro.

Como foi observado na Coluna de sexta-feira, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o secretário do Tesouro, Arno Augustin, pedem reforço da política anticíclica. Isso, na prática, prevê aumento das despesas públicas com o objetivo de criar mais demanda e, por tabela, mais produção. É a política que passaria pelo agravamento das contas públicas e pelo aumento da dívida. Além disso, tem tudo para tornar inexorável a perda do grau de investimento dos títulos do Tesouro, fator que pioraria tudo.

Na última sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse o contrário. Avisou que a nova estratégia seria a de garantir mais superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida), política que implicaria o contra-ataque aos focos de hemorragia das finanças públicas, como o estouro dos benefícios com pensão e com seguro-desemprego e a larga concessão de subsídios de crédito pelo BNDES. Não deixou claro como isso se faria nem se seriam providências suficientes para reequilibrar as contas públicas. Em todo o caso, acenam para a direção correta a seguir.

A proposta do ministro Mercadante está descolada da realidade, como tantas posições assumidas por ele no passado. Dentro do PT foi, por exemplo, um dos esteios do Plano Collor, porque entendeu que o sequestro da poupança e o congelamento dos depósitos nas contas correntes eram a melhor forma de descarregar o ajuste sobre os mais ricos. Também se notabilizou por abrir fogo contra o Plano Real, não por respeitáveis objeções técnicas ou ideológicas, mas porque, na ocasião, a estabilização monetária tiraria, como tirou, votos do PT. Agora, Mercadante prega o reforço da política anticíclica, como se houvesse espaço no Tesouro para novas aventuras.

Em todo o caso, a insistência em políticas que fracassaram neste primeiro mandato e as divergências que pipocam por aí são indício de que o governo ainda está à procura da direção a seguir.

Pode-se até mesmo perguntar se a presidente Dilma está mesmo convencida de que existam problemas à espera de solução. Ao longo dos últimos meses, pelo menos, insistiu em que não há nada de especialmente errado na economia e que não há o que mudar, a ponto de justificar um dever de casa a cumprir.

CONFIRA:

Petroleo10nov

As cotações do petróleo seguem deslizando, desta vez, em direção aos US$ 75 por barril de 159 litros para o tipo WTI e na direção dos US$ 80 por barril para o tipo Brent.

Resultado negativo
A primeira semana de novembro apresentou um déficit de US$ 747 milhões. O desempenho das exportações segue fraco e não dá sinais de recuperação. Nesta segunda-feira, a Pesquisa Focus do Banco Central apontou para um recuo de US$ 2 bilhões para US$ 1 bilhão no superávit previsto pelo mercado. Nas próximas semanas, esse superávit tende a cair.

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