Quanto me amas?

Quanto me amas?

Pergunta agora a ser feita à presidente Dilma, logo na primeira cena de seu segundo mandato: “Se amas a ortodoxia econômica, quanto a amas?”

Celso Ming

03 Dezembro 2014 | 21h00

Logo na primeira cena da peça de Shakespeare, Cleópatra pergunta a Marco Antônio: “Se me amas, diga-me quanto me amas?”. E, ali mesmo, Marco Antônio revela sua personalidade escapista: “É miserável o amor que pode ser medido”.

Pergunta agora a ser feita à presidente Dilma, logo na primeira cena de seu segundo mandato: “Se amas a ortodoxia econômica, quanto a amas?”.

Mesmo aqueles que já contavam com alguma mudança de rumos não esperavam que fosse tão radical. Talvez por isso mesmo, poucos acreditem que seja duradoura.

DILMA ROUSSEFF/REUNIAO DE LIDERES

Dilma. É miserável… (FOTO:DIDA SAMPAIO/ESTADAO)

Há os inconformados, tanto no PT e adjacências como na oposição. A companheirada condena o que entende por desvio neoliberal que contraria, como pensam, os compromissos históricos do partido e das esquerdas. A título de esperneio, os que perderam a eleição, por sua vez, denunciam o estelionato eleitoral, essa desfaçatez de assumir a bandeira da oposição depois de tê-la acusado de fazer o jogo dos banqueiros, esses que avançam sobre o prato de comida dos pobres.

Há, entre os analistas, aqueles para os quais a presidente é a loba que perde o pelo, mas não perde a manha. Acaba de fazer uma média com o mercado financeiro – acreditam -, mas, lá pelas tantas, tirará a escada sobre a qual se apoiará a equipe econômica às voltas com o ajuste. Os mesmos desconfiam de que a autonomia da nova equipe será precária, sujeita a reversões tão logo entre em choque com o jeito Dilma de governar.

E há os que entendem que a presidente não tem outra saída se quer condições de governabilidade. Se é para evitar o rebaixamento da qualidade da dívida brasileira e para recuperar investimentos e capacidade de produção da indústria, então é preciso adotar uma política realista na condução das finanças públicas.

O governo Dilma cometeu erros demais na condução da política econômica ao longo do primeiro mandato. Usou o caixa dos bancos públicos e das empresas estatais para financiar os projetos de poder e de ocupação do Estado. Foi incapaz de acionar o capital privado para os investimentos em infraestrutura. Tocou uma política econômica à base de improvisações e de favorecimentos, em detrimento do setor de energia elétrica, do petróleo e do etanol. E, atrás dessas, podem-se enfileirar outras lambanças.

No entanto, dois foram os erros capitais dos quais provieram os outros. O primeiro foi o diagnóstico de que a demanda estava reprimida e que bastaria acionar o consumo para que o resto viesse atrás, como patinhos atrás da mãe pata. Logo se viu que a produção empacou e foi preciso acionar as importações para dar conta do consumo. Outro erro foi achar que era possível conduzir tanto uma política social como uma política anticíclica com o desleixo do equilíbrio fiscal. Agora que precisaria expandir as despesas para impulsionar o investimento e a produção, o Tesouro está esgotado como o sistema Cantareira.

A reviravolta em direção à solidez dos fundamentos não é, portanto, apenas um capricho da presidente Dilma. É um movimento em busca da sobrevivência política. E aqui vai a resposta à pergunta feita no segundo parágrafo deste texto: apesar da dolorosa distribuição de contas, é mais provável que a nova política econômica dê mais certo do que errado. Se der certo, o recurso à ortodoxia deve continuar, por mais oportunista e miserável que seja a opção por ela.

CONFIRA:

Selic3dezembro

Veja como ficou a evolução dos juros básicos desde 2008 até ontem.

Meio ponto
A puxada em mais 0,5 ponto porcentual nos juros  decidida pelo Copom nesta quarta-feira só passou a ser esperada mais recentemente, quando dois diretores do Banco Central acenaram com mão mais pesada contra a inflação. O momento é de mostrar sintonia com a área fiscal, que prometeu austeridade. O recado do comunicado divulgado após a reunião sugere que o aperto deve continuar, embora em dose mais baixa (“com parcimônia”), até chegar a juros de 12,0% ao ano.