Quase nada

Quase nada

Os resultados das Contas Nacionais confirmaram o miserê esperado. Um avanço de apenas 0,1% no terceiro trimestre sobre o trimestre anterior indica que a paradeira continua; Até mesmo o consumo das famílias, antes motor do PIB, mostrou retração, agora de 0,3%

Celso Ming

28 de novembro de 2014 | 21h00

Sempre que o IBGE anunciou o PIB, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez questão de convocar a imprensa para uma entrevista coletiva em que justificava o justificável ou o in justificável.

Mas, desta vez, preferiu não aparecer. O Ministério da Fazenda emitiu apenas uma nota sem assinatura, carregada de afirmações-padrão. É outra indicação do fim de feira em que se transformou este primeiro período de administração Dilma.

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O fracasso da chamada Nova Matriz Macroeconômica já está mais do que reconhecido com a guinada da política econômica anunciada em suas linhas gerais. Os analistas não têm mais de esquadrinhar os resultados econômicos para expor a homens e mulheres identificados com o interesse público que a política teria de mudar. Apenas balançam os números acompanhados de caras e bocas como quem diz: “Não estava previsto?” Nem o governo tem de desdobrar-se em explicações.

Os resultados das Contas Nacionais confirmaram o miserê esperado. Um avanço de apenas 0,1% no terceiro trimestre sobre o trimestre anterior indica que a paradeira continua. Até mesmo o consumo das famílias, antes motor do PIB, mostrou retração, agora de 0,3%.

Desta vez o ministro não teria como repetir a desculpa recorrente de que o fator responsável pelo mau desempenho da renda nacional é a economia global malparada. Há quatro dias, para o mesmo terceiro trimestre deste ano, os Estados Unidos apontaram o crescimento em bases anuais de 3,9%. Mal ou bem, a área do euro está avançando a 0,8%, provavelmente mais do que o Brasil neste ano. E a China segue ao ritmo de 7,3% ao ano. Ou seja, estamos onde estamos por mazelas nossas.

O investimento (Formação Bruta do Capital Fixo) até que mostrou alguma reação em relação à situação do segundo trimestre: crescimento de 1,3%, que ficou muito longe de compensar a quase tragédia do resultado acumulado no ano: queda de 7,4%. Esse dado é relevante porque o investimento de hoje é o crescimento de amanhã. Se o investimento não corresponde, não dá para contar com mudança de marcha.

Não dá para contar por duas outras razões. Primeira, porque a temporada que começa em janeiro é de ajuste e, nessas condições, não se pode projetar um avanço alentado do PIB em 2015. Segunda, porque o PIB de 2014 produzirá baixíssimo arrasto para 2015. É como começar uma volta rápida a partir de velocidade zero. A Pesquisa Focus, do Banco Central, que incorpora as projeções de cerca de 100 instituições, prevê, em média, um avanço do PIB em 2015 de apenas 0,8%. É um número acachapante quando se leva em conta que será calculado sobre o desempenho medíocre deste ano.

Os defensores do arranjo das políticas econômicas que levaram a esse resultado vinham argumentando que o governo não poderia ser rigoroso no combate à inflação porque acabaria por asfixiar a atividade econômica. Os números mostram que a atividade econômica está asfixiada mesmo com essa inflação no teto. É mais um elemento a demonstrar que a inflação na meta é precondição para o alto nível de confiança na política econômica e para o crescimento sustentado.

CONFIRA:

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O gráfico mostra o tombo da participação da poupança e do investimento no PIB. São fatores que pesam (nesse caso negativamente) no PIB futuro.

Combustíveis
No dia 6 de novembro, quando o governo admitiu o reajuste dos combustíveis, as cotações do petróleo tipo Brent estavam a US$ 83,31 por barril. Nesta sexta, fecharam a US$ 70,15, um nível 16% mais baixo. Ou seja, a situação se inverteu. Os preços dos combustíveis estão hoje acima dos preços internacionais. Isso mostra como faz falta uma regra objetiva para defini-los.

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