Que diálogo?

Que diálogo?

Em nenhum momento dessa campanha eleitoral proveio da presidente Dilma o reconhecimento de que tenha cometido erros na condução da política econômica

Celso Ming

27 de outubro de 2014 | 21h00

A presidente Dilma quer diálogo e união. Foi a síntese de seu pronunciamento depois de conhecido o resultado das eleições. Mas querer é pouco.

Depois dessa intensa campanha eleitoral, não há muito o que dialogar. Os pontos de vista, divergentes ou nem tanto, ficaram conhecidos. Pouco há o que a eles acrescentar.

Dilma Roussef eleição

Dilma. Efeito “resultado apertado”. (Foto: Ed Ferreira/Estadão)

A convocação à união do País, que saiu das urnas dividido ao meio, vai depender das decisões que a presidente Dilma vier a tomar a partir de agora. Não há nenhum sinal de que essas decisões apontarão para correções de rumo.

Em nenhum momento dessa campanha eleitoral proveio da presidente Dilma o reconhecimento de que tenha cometido erros na condução da política econômica. Não há nada a corrigir, repisou ela durante todos esses anos. E, sem reconhecimento, é difícil de mudar.

O baixo crescimento econômico, a inflação alta e as demais distorções não aconteceram por erro de escolha, avisam todos do governo. Aconteceram, insistem, por efeito das adversidades ou do clima ou do mau momento atravessado pela economia mundial.

E, nesta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ainda mais explícito: “Isso (o resultado nas urnas) mostra que a população está aprovando a política que estamos praticando”. Ou seja, não há o que mudar, vocês terão de nos engolir, não importando se metade da população votou contra ou se, aplicada a mesma lógica, desaprovou a condução da política econômica.

Não significa que o governo vá necessariamente dobrar a aposta e repelir todos os ajustes. Dilma até que acenou com transformações: “Algumas vezes na História, resultados apertados produziram mudanças mais fortes e mais rápidas do que vitórias muito amplas”. Mas não apontou em que direção.

Esta Coluna vem afirmando que alguns ajustes serão inevitáveis. A necessidade de recompor os preços administrados (combustíveis, energia elétrica e transportes urbanos) e de permitir certo nível de desvalorização cambial (alta do dólar) exigirá contrapartidas de política econômica, especialmente na área fiscal e na área dos juros, que, por si sós, implicarão rearrumação do mix macroeconômico adotado. Mas, outra vez, não há indicação nem do que virá nem em que magnitude.

Sabe-se apenas que eventuais correções, como anunciado, deverão ser graduais e indolores. A opção pelo gradualismo exige credibilidade do governo para sustentá-lo ao longo do tempo. O problema é que, aparentemente, a presidente Dilma não tem nenhuma opção à mão que exiba bom capital em confiança e que se sujeite a ser apenas executora de ordens superiores.

Ela também avisou que dará prioridade à reforma política para que esteja em condições de combater a corrupção. Mas quer a reforma política por meio de consulta plebiscitária, opção recusada pelo Congresso em 2013. Mas, pergunta-se, haverá disposição do Congresso, sempre tão empenhado em defender seus privilégios, de aceitar mudanças nas regras do jogo, as mesmas que o levaram até onde está?
De todo modo, a faca e o queijo estão agora nas mãos da presidente Dilma. Dependerá dela, e só dela, a volta do diálogo e a união do País, seja o que ambos signifiquem.

CONFIRA:

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Grau de investimento
O risco de perda do grau de investimento da dívida brasileira é alto. Este não é apenas um critério do mercado financeiro que alguns entendem como pouco relevante para a economia real. Perda do grau de investimento significa redução do mercado para a dívida de títulos brasileiros e aumento das despesas com juros. E esse rebaixamento não se limitaria aos títulos do Tesouro do Brasil, mas alcançaria os títulos das empresas estatais e da maioria dos títulos privados do Brasil.

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