Quebrar ou não quebrar

Celso Ming

23 de setembro de 2011 | 19h45

Nesta sexta-feira, duas altas autoridades europeias admitiram, afinal, a quebra (default) da Grécia. Foram Klass Knot, diretor do Banco Central Europeu (BCE), representante da Holanda no Conselho; e ninguém menos que o ministro das Finanças da Grécia, Evangelos Venizelos.

Esse avisou que contempla três cenários para o desfecho da crise: (1) a chegada do socorro de 109 bilhões de euros e o estancamento da hemorragia – ao menos, a imediata; (2) um default controlado que preveja um corte de algo em torno de 50% da dívida grega; e (3) um default descontrolado, seguido por forte quebra de confiança nos mercados.

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Venizelos. Risco de calote (FOTO: JOHN KOLESIDIS/REUTERS)

Mais tarde, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, descartou a hipótese do default – o que foi interpretado como declaração de conveniência.

O prognóstico do calote já é largamente aceito pelos analistas internacionais, dando-se por entendido que falta somente marcar a data. Uma boa hipótese a considerar é a de que as autoridades da área do euro estejam apenas ganhando tempo para que essa quebra possa ser mais bem digerida.

Há dois riscos envolvidos na eventualidade de drástica reestruturação da dívida grega, hoje de 350 bilhões de euros (150% do PIB). O primeiro é o de provocar a destruição de um pedaço importante do patrimônio dos bancos credores. Um default ordenado teria de prever uma capitalização de emergência de um punhado dos bancos mais intensamente expostos à dívida da Grécia.

O segundo risco – e o mais temido – é o de que o calote grego seja somente um ponto que se solte e, em seguida, provoque o desmanche de toda a peça do crochê. Em outras palavras, trata-se do risco de contaminação. Nessas condições, os credores se perguntariam pelos próximos da lista (os outros quatro candidatos são Portugal, Irlanda, Itália e Espanha). Ou seja, seria instalado um clima de salve-se quem puder, com a prioridade possível a mulheres e crianças.

Não apenas os bancos europeus estão expostos às dívidas soberanas do bloco do euro. Na terça-feira, Martin Wolf, comentarista do Financial Times, lembrou que os bancos dos Estados Unidos têm em carteira nada menos que US$ 478 bilhões em títulos de dívida da zona do euro. Significa que, num cenário ruim, uma grande parte da rede bancária dos países ricos teria de ser capitalizada para cobrir a desvalorização dos seus ativos.

Essas são ameaças que não vêm sendo ignoradas pelos grandes bancos centrais, especialmente pelo BCE e pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). O que se imagina é que operações destinadas a apagar prováveis focos de incêndio já estejam sendo preparadas.

A declaração de incapacidade de cumprir seus compromissos financeiros e um corte de 50% da dívida não significam necessariamente que a Grécia tenha de sair do clube do euro. Essa opção traria desdobramentos de alta complexidade, porque a dívida pública e os depósitos e aplicações nos bancos gregos estão em euros. A volta à velha dracma, fortemente desvalorizada, provocaria um pandemônio nos bancos. E não somente nos da Grécia, mas, pelo efeito contágio, possivelmente nos de toda a área do euro.

A paisagem é essa. O que falta são decisões políticas.

CONFIRA

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Os Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) no País acumulam US$ 44,1 bilhões neste ano até agosto (inclusive) e US$ 75,4 bilhões em 12 meses.

E vêm mais. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, prevê, só em setembro, mais US$ 5 bilhões. Assim, até o fim do ano, poderão passar de US$ 70 bilhões.

Refazendo as contas. Os IEDs registrados em agosto (US$ 5,6 bilhões) fizeram o Banco Central retificar suas projeções para 2011, de US$ 55 bilhões para US$ 60 bilhões.

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