Realismo orçamentário

Realismo orçamentário

Esta equipe econômica já tem certa quilometragem rodada e ao cabo destes pouco mais de cem dias tem se esforçado para passar a mensagem de que não está aí para enganar ninguém

Celso Ming

16 Abril 2015 | 21h00

Esta equipe econômica já tem certa quilometragem rodada e ao cabo destes pouco mais de cem dias tem se esforçado para passar a mensagem de que não está aí para enganar ninguém.

O compromisso com diagnósticos implacáveis dos problemas não se limita à adoção do realismo tarifário e, portanto, ao reconhecimento da existência de preços e de tarifas fortemente represados. Até as projeções macroeconômicas procuram diferenciar das práticas adotadas pela dupla Guido Mantega/Arno Augustin.

Todo orçamento tem de estimar receitas e despesas para o período orçado. No caso do Orçamento da União, as duas variáveis macroeconômicas mais importantes são as do crescimento do PIB e as da inflação. São elas que dão base para as projeções de receita e de despesa. A filosofia da administração econômica do primeiro mandato Dilma era a de que era preciso exagerar no otimismo, não importando se o Orçamento se transformasse numa peça de ficção, como de fato se transformou.

TABELA PROJECOES

O pressuposto parece ter sido o de que o governo tem inesgotável capacidade de mobilização de corações e mentes. É quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Se profetiza avanço do PIB de 4%, o resultado poderá ser um pouco mais baixo, mas será bem mais alto do que aquele que aconteceria se faltasse empolgação.

Essa práxis voluntarista foi um desastre. As grandes metas de política econômica do primeiro período Dilma fracassaram. O resultado foi perda irrecuperável de credibilidade. E, pior, as pedaladas fiscais destinadas a escamotear os rombos são agora reconhecidas como crime fiscal pelo Tribunal de Contas da União.

A nova equipe econômica liderada pela dupla Joaquim Levy e Nelson Barbosa repeliu essa postura delirante e optou pelo realismo orçamentário. A mentalidade predominante em agosto de 2014 previa, para 2015, crescimento do PIB de 3,0% e inflação de 5,0%. Agora, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2016 prevê para 2015 uma evolução negativa do PIB, de 0,9%, uma inflação de 8,2%, que estoura o teto da meta em 1,7 ponto porcentual.

O objetivo é embicar para uma queda persistente da dívida bruta do governo central, de 62,5% do PIB em 2015 para 60,4% do PIB em 2018. Também nisso mudou a filosofia da atual equipe. O secretário do Tesouro da administração anterior, Arno Augustin, entendia que não haveria nada de errado em puxar a dívida pública bruta para 60%, 70%, 100% do PIB. “Quem determinou que deverá ficar abaixo dos 50% do PIB?”, perguntava a quem observasse que essa política perdulária poderia desequilibrar as contas públicas.

A abordagem realista do Orçamento não se limitou aos pressupostos macroeconômicos. Além de recorrer a reajustes salariais mais moderados, a atual equipe optou, também, por evitar expedientes discutíveis para a obtenção de resultados, como o desconto de investimentos do PAC para que a meta pudesse ser considerada cumprida sem de fato ter sido.

É um começo com mais pé no chão, que dá mais valor à credibilidade do que a histórias da carochinha, que só têm valor quando consideradas como histórias da carochinha.

CONFIRA:

tabela ciela

A Cielo administra cartões de crédito e tem uma boa amostra do que acontece no comércio de varejo. A tabela acima aponta a evolução verificada no último trimestre de 2014 e no primeiro de 2015 em comparação com igual trimestre dos anos anteriores.