Rédea neles

Celso Ming

30 de julho de 2010 | 18h42

Nesta semana começou a ser atacado um sério problema do sistema financeiro, que é mais do que a falta de regulação: é a falta de regulação global.

Esta Coluna tem frequentemente denunciado o fato de que os grandes bancos são hoje instituições que operam em todo o planeta, 24 horas por dia, à velocidade da luz, enquanto os organismos de controle, regulação e supervisão são meramente locais ou, até mesmo, paroquiais. Nessas condições um grande banco tem enorme facilidade de evitar as rédeas. Quando é apertado por um xerife qualquer, transfere a titularidade dos seus ativos para um país onde não há esses controles.

O passo adiante foi dado segunda-feira em Basel, na Suíça, onde está a sede do Bank of International Settlements (BIS), que opera como o banco central dos bancos centrais. Lá foi decidido que os bancos centrais deverão começar a trabalhar com os critérios de segurança conhecidos como padrões Basileia-3. A mais importante dessas exigências são os limites de alavancagem. Os bancos não poderão ter mais do que US$ 100 em ativos para cada US$ 3 de capital, aí consideradas também as obrigações “fora de balanço”.

Para escapar dessa camisa de força que os obriga a ter muitos recursos parados, os bancos americanos imaginaram que podiam operar como corretores de imóveis, apenas como intermediários de um negócio entre vendedores e compradores, ganhando para isso a margem de corretagem. Assim, intermediado pelo banco, o João emprestava seus recursos para o José e ficava com certificados hipotecários. Com o dinheiro do João, José comprava a casa dos seus sonhos e tinha até 30 anos para devolver o dinheiro em suaves prestações mensais. Se o João quisesse seus depósitos de volta, o banco os oferecia ao Luís, que, esperava-se, ficaria com eles. É claro, o banco deu garantia de recompra dos títulos dos aplicadores.

As coisas começaram a dar errado quando os preços dos imóveis despencaram abaixo do valor das hipotecas. Os investidores perceberam que seu dinheiro estava em perigo e correram aos bancos para resgatá-lo. E os bancos também ficaram a perigo porque tiveram de recomprar as aplicações sem terem recursos para isso, porque o dinheiro estava emprestado a longo prazo e já não havia mais tomadores para os títulos.

Os novos critérios de segurança bancária de Basileia-3 não se limitam a exigir proporção entre capital e empréstimos (ativos) dos bancos. Passam a exigir que compromissos normalmente fora dos balanços, como esses de recompra e disponibilidades de recursos para cheques especiais, sejam levados em conta. Ou seja, pelos critérios de Basileia-3, os bancos precisam manter capital também para enfrentar esses compromissos aleatórios.

Ainda não está claro até que ponto esses acordos firmados entre bancos centrais junto ao BIS serão colocados em prática. O Bundesbank, banco central da Alemanha, já disse que não aceita a imposição dos novos critérios para as caixas econômicas e para as cooperativas de crédito. Além disso, alguns críticos avisam que as novas exigências chegam frouxas em relação à proposta inicial e que pouco acrescentam à segurança global do sistema. Em todo o caso, é um passo a mais no processo de enquadramento dos bancos. A importância da iniciativa só poderá ser medida dentro de alguns anos.

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