Reinício do aperto

Celso Ming

25 de fevereiro de 2010 | 20h46

O Banco Central anunciou na noite de quarta-feira a redução do nível de recursos que os bancos podem ter à sua disposição para as operações de crédito.

Tecnicamente, está exigindo o retorno aos patamares de retenção compulsória dos bancos prevalecentes até as vésperas do estouro das bolhas que deflagraram a crise.

Apenas para quem não está familiarizado com o jargão econômico, retenção compulsória é a parcela dos recursos do depositante ou do aplicador financeiro com que os bancos não podem trabalhar. Tem de ser depositada no Banco Central.

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MEIRELLES – Práticas prudenciais (Foto: Dida Sampaio/AE – 11/09/2009)

Logo depois que o Lehman Brothers quebrou e semeou o pânico nos mercados, em setembro de 2008, o crédito estancou de repente no mundo inteiro e o Brasil não foi exceção. Os bancos deixaram de confiar até mesmo em outros bancos, todo o mercado se fechou e mesmo as instituições que tinham disponibilidades preferiram mantê-las em caixa.

Foi o que levou os bancos centrais de todo o mundo a operações de injeção direta de recursos para evitar uma trombose do sistema produtivo. É o processo que os técnicos chamam de atuação anticíclica das autoridades monetárias.

No Brasil, o Banco Central abriu janelas de oferta de moeda estrangeira (operações de câmbio) e reduziu a retenção compulsória dos bancos a fim de que sobrassem mais recursos para o giro do setor privado. Apenas em redução da retenção compulsória dos bancos, mais R$ 99,8 bilhões foram injetados no sistema. Desse total, agora está sendo retirado algo em torno de R$ 70 bilhões.

No comunicado oficial do Banco Central ficou explicado que essa operação inicia o processo de “retorno à normalidade”. Muita gente estranha que, no Brasil, o nível de normalidade esteja substancialmente acima dos padrões globais. O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola tem uma explicação: os bancos oficiais se abastecem de certo volume de recursos públicos sobre os quais não precisam recolher depósitos compulsórios. Isso leva o Banco Central a aumentar para além do que seria preciso o compulsório dos bancos privados.

Mas o Banco Central diz também que “se antecipa a boas práticas prudenciais”. Ou seja, está tomando providências destinadas a apertar a oferta de crédito que, nos últimos 12 meses terminados em janeiro, cresceu nada menos que 15,7%, fator que está acelerando o consumo e – sabemos por outros comunicados do Banco Central – ameaça puxar a inflação para acima da meta de 4,5% estabelecida para este ano.

Fica assim inaugurada a temporada de aperto. Por enquanto, trata-se apenas de aperto de liquidez. A pergunta é até que ponto essa decisão altera o curso da política monetária propriamente dita (política de juros). A próxima reunião do Copom está agendada para 17 de março e a seguinte, para 28 de abril.

Ainda que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, diga que a alteração do nível do compulsório não muda em nada a disposição da autoridade monetária, a suspensão dos alívios do compulsório impõe um movimento de endurecimento da política.

O que precisa ser respondido agora é se esse endurecimento vem para adiar o reinício do aumento dos juros básicos ou se apenas o antecipa.

Confira

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Em alta – Os bancos puxaram os juros no crédito, bem antes que o Banco Central tivesse começado a reduzir o compulsório dos bancos. Na tabela estão apenas dois segmentos. Mas a alta é generalizada.

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