Resistente e espalhada

Resistente e espalhada

A principal avaliação do movimento de preços é de que a alta continua resistente e espalhada

Celso Ming

07 de novembro de 2014 | 21h00

A inflação de outubro (0,42%) foi algo mais fraca do que a do mês anterior (0,57%) e um pouco abaixo do que esperavam os analistas. Mas, ainda assim, continua excessiva. No período de 12 meses, terminado em outubro, chegou aos 6,59%, acima do teto da meta, de 6,5% ao ano. Só cairá abaixo desse nível em novembro, se a inflação do mês for inferior a 0,46%.

A principal avaliação do movimento de preços é de que a alta continua resistente e espalhada. O índice de difusão, que reflete o número de itens da cesta de consumo que subiram de preço, alcançou 64,7%, superior aos 61,4% apontados no mês anterior.

IPCA8nov

A tendência continua sendo de alta porque a economia vive um período de frenesi remarcatório – aquilo que o Banco Central está chamando de processo de realinhamento de preços. Tem dupla direção.

De um lado, há o desrepresamento dos preços que ficou para depois das eleições: combustíveis, energia elétrica e, mais adiante, tarifas de transportes urbanos. De outro, o impacto dos ajustes internos aos externos, acionado pela alta da moeda estrangeira (desvalorização cambial). Do dia 1.º de setembro até ontem, as cotações do dólar saltaram 14,4%. É um fator que vai puxar para cima os preços dos itens pagos em moeda estrangeira (importados, dívidas, viagens, etc.). Como ficou difícil de encontrar produto nacional que não tenha alto componente de importados, é certo que a disparada da cotação do dólar continuará a produzir inflação.

Até onde vai essa puxada é difícil de saber agora. Em parte, deve-se à disposição do Banco Central de não queimar a mesma munição (pouco mais de US$ 100 bilhões na rolagem de swaps no mercado futuro). Ou seja, a decisão parece não ser mais segurar o câmbio tão determinadamente como antes. Em parte, essa desvalorização cambial reflete as indefinições do governo Dilma e a falta de confiança do mercado. Depende apenas dela virar esse jogo contra, desde que anuncie uma equipe econômica comprometida com a recuperação da solidez dos fundamentos da economia. E isso é coisa para conferir nos próximos meses.

O impacto dos reajustes corretivos e do câmbio é fator imediato de inflação. Mas há outras incubadeiras de inflação em funcionamento. Entre elas estão os impactos da estiagem sobre a produção de alimentos e a provável continuação da política de mão frouxa na condução das despesas públicas.

Enquanto o governo persistir nesse rap suburbano de que não há o que mudar, porque é preciso operar no contraciclo e porque a recuperação da economia depende das fartas transferências de recursos públicos, o combate à inflação terá o jogo contra da política fiscal. Se isso se confirmar, o Banco Central tenderá a ficar sozinho nessa guerra. O que, em princípio, implicará doses mais altas de aperto nos juros ou, na outra hipótese, mais inflação futura.

Em todo o caso, há uma dança das cadeiras para acontecer nos principais cargos da área econômica do segundo governo Dilma e, com ela, alguma coisa da política econômica também terá de mudar. Antes que se conheça a direção a seguir, fica difícil de avaliar a qualidade do contra-ataque à inflação.

CONFIRA:

PrecosVariacaoOUT

O gráfico mostra como evoluíram dois segmentos da inflação: o dos preços livres e o dos administrados.

Falta a regra
Mais uma vez, o governo não aproveitou o reajuste dos preços dos combustíveis, desta vez de 3% na gasolina e de 5% no óleo diesel, para definir uma regra para o setor que valesse tanto para situações de alta como de baixa. Se, por exemplo, as cotações do petróleo resvalarem para a altura dos US$ 70 por barril de 159 litros (hoje estão à altura dos US$ 79), será preciso baixar também os preços internos. Mas com que critério?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.