Resultado fraco

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As contas públicas de março decepcionaram; A média das expectativas do mercado era a de que haveria um superávit primário (que não inclui os juros da dívida) de R$ 3 bilhões. Veio um superávit de apenas 8% disso, ou de R$ 239 milhões

Celso Ming

30 de abril de 2015 | 21h00

O que pensar de uma economia que cresceu algo em torno de zero em 2014 e terá uma retração do PIB de 1,5% em 2015; que convive com uma inflação de mais de 8,0% ao ano; precisa de juros básicos de 13,25% ao ano; apresentou um rombo fiscal de R$ 32,6 bilhões, ou 0,63% do PIB em 2014, e não consegue mais do que um superávit que é uma fração da meta do primeiro trimestre de 2015; enfrenta um déficit nas contas externas de mais de US$ 90 bilhões em 12 meses; não investe mais do que 19% do PIB; e tem uma presidente que insiste, como insistiu nesta quinta-feira, em que a crise é externa?

As contas públicas de março decepcionaram. A média das expectativas do mercado era a de que haveria um superávit primário (que não inclui os juros da dívida) de R$ 3 bilhões. Veio um superávit de apenas 8% disso, ou de R$ 239 milhões.

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O principal vilão desse desempenho ruim é o rabo de cavalo, que cresce para baixo. Com a recessão, cai o consumo, caem as vendas, cai a produção, cai a arrecadação. Assim, a tesoura do ministro acaba tendo de fazer trabalho redobrado para cumprir a meta fiscal, que é de R$ 66,3 bilhões neste ano.

Quarta-feira o Tesouro já havia divulgado seus números, também chochos. A receita do primeiro trimestre ficou nos R$ 314,7 bilhões, apenas 2,9% acima da receita obtida em igual período de 2014, o que não cobre nem a inflação em 12 meses (até março), que está em 8,13%.

Nestes primeiros três meses do ano, o resultado das contas públicas é de um superávit primário de R$ 19,0 bilhões. No período de 12 meses também terminado em março, o buraco acumulado é de R$ 39,2 bilhões, ou 0,7% do PIB, algo abaixo do obtido em 2014.

No seu depoimento na Câmara dos Deputados, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, advertiu que, diante do desempenho fraco, o Brasil está mais perto do rebaixamento da qualidade da dívida ao grau de especulação do que da manutenção do grau de investimento. Ele quer mais empenho dos congressistas para aprovação dos ajustes.

Para certos setores das esquerdas, a perseguição do grau de investimento não passa de obsessão que atende apenas a interesses dos banqueiros. Felizmente, não é essa a posição do governo Dilma. Quando saiu o grau de investimento, em 2008, pela agência Fitch, o presidente Lula festejou com foguetório e banda de música, porque entendeu o alívio que o País obteria com a redução dos juros da dívida.
Para levar a sério a meta fiscal, único caminho para a recuperação da economia e retomada do emprego, num ano de recessão, não há saída senão reduzir ainda mais as despesas e apelar para as receitas extraordinárias. Os leilões de concessão têm de ser intensificados, sem medo de privataria e de restrições ideológicas dessa ordem.

O Brasil pode ter as instituições mais confiáveis entre os emergentes, como os investidores estrangeiros vêm reconhecendo, mas mostra desarranjos graves na economia. Eles não foram causados nem pela crise externa nem pela estiagem. São consequência de decisões equivocadas tomadas pelo menos nos últimos oito anos.

CONFIRA:

TesouroTransfer

Esta foi a transfusão de recursos do Tesouro para os bancos públicos. Foram R$ 463,1 bilhões em sete anos. Dos quais, 89% para o BNDES. O gráfico original foi apresentado pelo ministro Joaquim Levy na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira.

Desmame
A teta secou. O Tesouro está na lona e a dívida pública foi longe demais, como os resultados das contas públicas divulgadas nesta quinta-feira confirmaram. A dívida bruta do governo geral chegou em março a quase R$ 3,5 trilhões, ou 62,4% do PIB. Em dezembro estava nos R$ 3,3 trilhões, 58,9% do PIB.