Reúso da água

Reúso da água

Mesmo que volte a chover dentro da média histórica, a crise do abastecimento de água em São Paulo exigirá providências públicas até hoje subadotadas

Celso Ming

17 de outubro de 2014 | 21h00

Mesmo que volte a chover dentro da média histórica, a crise do abastecimento de água em São Paulo exigirá providências públicas até hoje subadotadas.

O Sistema Cantareira, responsável por 47% do abastecimento da região metropolitana de São Paulo, não deve se recuperar em menos de três anos – adverte o especialista Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água.

Este é um quadro de crise que não se reverte só com descontos na conta para quem consome menos. A tarifa da água é baixa, especialmente neste quadro de escassez. E desconto sobre uma conta baixa tende a apresentar respostas pouco significativas.

Nível da Cantareira cai para 8,4%

Cantareira. Mar virou sertão (Foto: Nilton Fukuda)

O reúso é um dos recursos ainda pouco explorados que poderiam ser acionados desde que houvesse políticas apropriadas para isso. Trata-se do reprocessamento da água servida que pode concorrer para outras finalidades, como resfriamento de equipamentos industriais, lavagem de carros e irrigação.
“Estamos poluindo os rios mais próximos e indo buscar água cada vez mais longe. Precisamos mudar esse paradigma”, adverte o diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água, Ivanildo Hespanhol.

As práticas de reúso de efluentes, autorizadas pela Resolução 54/2005 do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos (CNRH), alcançam cerca de 70% das indústrias de São Paulo, como apontam estimativas da Fiesp. Um dos exemplos mais notáveis é o projeto Aquapolo na Estação de Tratamento do ABC. Trata-se de parceria entre a Sabesp e o Grupo Odebrecht que fornece até mil litros de água de reúso por segundo ao polo petroquímico do ABC.

Hespanhol adverte que ainda é pouco. “É preciso expandir o reúso para fins potáveis, como já acontece nos Estados Unidos, Cingapura e Namíbia.” Ele lembra o caso da agricultura, consumidora de cerca de 70% da água dos rios e mananciais do Brasil, que não é alcançada pelo reúso. “Temos tecnologia para transformar qualquer esgoto em água potável. Alguns mananciais que abastecem São Paulo, como a Billings, têm qualidade similar ao esgoto que queremos tratar.”

A população do País ainda não superou o preconceito de que água de reúso é água de esgoto, o que pede programas de esclarecimento público. Mas há também as barreiras normativas, consideradas excessivamente restritivas, por exigirem da água de reúso qualidade até superior à utilizada em piscinas de clubes.

A falta d’água normalmente empurra a população para soluções não convencionais. Uma delas é o recurso aos poços artesianos. (Veja o Confira) Hoje, a utilização dessa água subterrânea por usuários privados, como indústrias, shopping centers, clubes e condomínios, depende de outorga do Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), que tem 27.312 poços cadastrados no Estado e 2.082 na capital paulista. O Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP (Cepas), no entanto, estima a existência de um número 40% mais alto, formado por poços clandestinos.

Esses poços privados de captação de recursos hídricos subterrâneos respondem hoje por 15% da demanda atual da região metropolitana de São Paulo. “Esta crise é uma excelente oportunidade para que as autoridades não só redobrem a fiscalização, mas planejem a utilização racional desses recursos”, diz Reginaldo Bertolo, diretor do Cepas. /COLABOROU LAURA MAIA

CONFIRA:

chuvaOUT

Veja o comportamento das chuvas em São Paulo desde outubro de 2013.

Preço de um poço
O custo para perfurar um poço varia de acordo com a profundidade, o tipo de terreno e outros fatores. Hoje, um poço de 150 metros pode sair por cerca de R$ 30 mil.

Burocracia
O diretor de Meio Ambiente da Fiesp, Nelson Pereira dos Reis, se queixa da excessiva burocracia do DAEE na concessão de outorga para uso da água subterrânea. “Só de prazo são pelo menos, 90 dias”.

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