Salvar o navio

Salvar o navio

A partir do momento em que os fundamentos da economia voltarem à ordem e se puder dispensar o concurso dos bombeiros, as incertezas se desvanecerão e o setor produtivo terá chão firme para planejar seus negócios

Celso Ming

05 de março de 2015 | 21h00

Lideranças de 39 entidades representativas da Indústria e das centrais sindicais redigiram um documento intitulado Manifesto da Coalizão Capital-Trabalho, em que reivindicam políticas de socorro para a indústria e o respeito aos direitos trabalhistas.

O foco é a desidratação da indústria por quatro fatores principais: juros altos demais, câmbio valorizado (dólar barato), excessiva carga tributária e impostos cumulativos (em cascata). Os signatários do manifesto reivindicam uma política que dê horizonte à indústria nacional.

Os obstáculos e as travas de que se queixam industriais e sindicalistas são reais. A indústria perdeu competitividade por todos esses problemas e por outros não mencionados, como a infraestrutura ruim e cara, a falta de reformas, excesso de burocracia, corrupção, Justiça lenta demais e falta de acordos comerciais que abram espaço para o produto industrial no exterior.

No entanto, de nada adianta derrubar os juros, puxar o câmbio e desonerar a indústria se antes o problema de base não for equacionado. E o problema de base é o da enorme fragilidade dos fundamentos da economia. Nenhuma política industrial se mantém de pé e nenhum crescimento econômico será sustentável se as contas públicas estiverem tão desarrumadas como estão agora.

Não dá para dizer, por exemplo, que o primeiro mandato da presidente Dilma não teve política industrial. Os juros foram afundados na marra, o crédito avançou cerca de 75% nesses quatro anos por indução do governo, as despesas públicas foram fortemente expandidas para criar mercado interno, os impostos sobre vendas de veículos, de aparelhos domésticos e de materiais de construção foram reduzidos, o ex-ministro Guido Mantega determinou ampla desoneração das folhas de pagamentos que custou R$ 25 bilhões por ano, o governo criou reservas de mercado e exigências mínimas de conteúdo local para setores considerados estratégicos. Além disso, a política alfandegária continua altamente protecionista, e as tarifas de insumos importantes para a produção, como energia elétrica e combustíveis foram deliberadamente achatadas.

Tudo isso não foi pouca coisa. E com que resultado. A indústria está arriada como todos estão vendo. Por trás do fracasso está um fracasso maior: a desarrumação das contas públicas, que atirou a inflação para acima dos 7% ao ano, o que obriga o governo a fazer agora essa enorme operação de aperto de cintos e de distribuição de contas à sociedade.

A partir do momento em que os fundamentos da economia voltarem à ordem e se puder dispensar o concurso dos bombeiros, as incertezas se desvanecerão e o setor produtivo terá chão firme para planejar seus negócios. Além disso, haverá campo para que o governo federal, seja de que orientação for, possa definir uma política industrial com um mínimo de realismo.

O manifesto em questão padece de um problema de base. O de não levar em conta os problemas originais da economia. Desfila reclamações, como o passageiro que reclama da água que entra por debaixo da porta de sua cabine, mas ignora o rombo no casco do navio. A hora é de salvar o navio e não de enxugar a água com rodo e pano de chão.

CONFIRA

Esta é a evolução das vendas do setor de veículos.

VeiculosFev2015

 

Desabando

Fevereiro foi um mês de queda livre nas vendas de veículos. As estatísticas nesta quinta-feira divulgadas pela Anfavea, a instituição do setor, mostram que, no mês passado, o licenciamento de veículos foi 26,7% menor do que em janeiro e 28,3% menor do que em fevereiro de 2014. A redução do poder aquisitivo causada pela inflação, a antecipação às compras por força da redução do IPI e o comportamento conservador do consumidor explicam a maior parte dessa fase ruim.

Tudo o que sabemos sobre:

ANFAVEAindústria

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.