Se abusar, vai faltar

Se abusar, vai faltar

Celso Ming

05 de fevereiro de 2014 | 21h00

Bastaram 15 dias de secura para que, finalmente, a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) acordasse para as primeiras medidas destinadas a incentivar a população a economizar água.

Em declaração do superintendente de Desenvolvimento Operacional da Sabesp, Eric Carozzi, veiculada por esta Coluna no dia 19 de janeiro, a posição oficial denotava displicência: “Aquilo que é desperdiçado após a distribuição já está pago pelo cliente, não gera perdas no abastecimento nem prejuízo para a empresa”. Quer dizer, o que mais importa é o faturamento da empresa, e não coibir o uso irracional de um bem escasso, que, independentemente do regime de chuvas, tende a tornar-se ainda mais escasso.

Precisou que o nível dos reservatórios do sistema Cantareira caísse para perto de 20% para que afinal a Sabesp se mexesse e desengavetasse a campanha de esclarecimento do consumidor, do tipo “sabendo usar não vai faltar”. Mais ainda, determinou o crédito de um bônus de 30% a ser repassado à conta de água do usuário que reduzisse seu consumo mensal em pelo menos 20%.

Para a Sabesp, o custo desse incentivo será irrelevante. Mais retorno conseguiria se fosse mais eficiente. Nada menos que 25% da água tratada pela empresa se perde no sistema em vazamentos ou desvios crônicos, antes de chegar ao consumidor. É um índice de perdas mais baixo do que a média do sistema nacional, que é de 40%, mas ainda alto demais, devido à lentidão dos programas de controle (veja, ainda, o Confira).

No ano passado, por exemplo, o consumo de água faturado pela Sabesp deve ter sido de 2,13 bilhões de metros cúbicos (os números definitivos ainda não foram divulgados). Se a população atendesse em massa aos novos apelos, o que é improvável, a redução do consumo ao longo de um ano não passaria de 400 milhões de metros cúbicos. E, no entanto, as perdas antes do faturamento são de mais de 500 milhões de metros cúbicos. Por aí se vê que a economia de água tem de começar dentro do próprio sistema. De nada adiantam economias marginais do consumidor se as empresas de saneamento, a Sabesp entre elas, não forem mais eficientes.

Se a falta de chuvas se prolongar, não há mesmo soluções imediatas senão recorrer ao racionamento, que em anos anteriores foi feito pelo sistema de rodízio. Mas até aí vão as reações da Sabesp, como se o problema fosse só climático.

Mas a longo prazo há muito o que fazer, a começar pelo estancamento dos vazamentos crônicos e contenção mais rápida dos episódicos. E segue também em aumentar o empenho em educar a população a poupar água doce.

Enquanto prevalecer dentro da Sabesp o ponto de vista manifestado pelo superintendente Carozzi, de que o prioritário é garantir a formação de caixa, a população vai continuar a achar lindo lavar calçada com jato de mangueira.

O trabalho educativo deve, necessariamente, se estender até mesmo a projetos de grande importância cívica como o da reciclagem de lixo. Parece necessário desestimular a lavagem pródiga de embalagens descartadas, apenas porque podem juntar barata.

CONFIRA:

Solução a jato. Em depoimento à Rádio CBN, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, garante que qualquer vazamento de água no sistema pode ser resolvido em 12 horas. Em 2008, as perdas da Sabesp já eram de quase 28% da produção.

“Gargalhem”. Por sugestão da presidente Dilma Rousseff, as reações às primeiras explicações sobre a causa do apagão de terça-feira devem ser sonoras gargalhadas. Em dezembro de 2012, a presidente Dilma avisou que os apagões têm como causa falha humana: “O dia em que falarem que é raio, gargalhem. Raio não desliga o sistema, se desligou é falha humana”.

Descarga e sobrecarga. Nesta quarta-feira, a palavra raio ficou de fora das explicações oficiais. Mas, se em vez de descarga atmosférica o problema foi de sobrecarga, como começa a ser admitido, a falha deixa de ser humana? Ou por outra, se está vulnerável a sobrecargas, até que ponto estamos autorizados a gargalhar?

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