Sem solução para o álcool

Celso Ming

25 de novembro de 2011 | 19h45

A safra da cana-de-açúcar no Centro-Sul praticamente acabou e os resultados são todos negativos.

A massa verde moída até 31 de outubro na região (mais de 85% do setor sucroalcooleiro do País) foi 8,3% menor do que no mesmo período de 2010, como mostra a tabela. O volume de açúcar processado até agora caiu 4,3%. E o recuo da produção de álcool foi ainda mais acentuado: 16,5%.

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Nesta segunda-feira, novos levantamentos, potencialmente mais negativos, serão divulgados. A última projeção para o desempenho final desta safra – da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) e do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) – agravou as perdas: de 12,3% no processamento de cana-de-açúcar; de 8,1% na geração de açúcar; e de 19,7% na de álcool.

Empresas do ramo já importaram 567,8 milhões de litros e outro tanto virá até maio de 2012 (fim da entressafra) para atender a um consumo que avança num ritmo superior a 5% ao ano.

Nada menos que dez repartições do governo, de algum modo, cuidam ou deveriam cuidar de tudo relacionado a álcool e açúcar. E, no entanto, nessas horas em que os problemas se acumulam, as autoridades estão sempre prontas a reclamar das adversidades climáticas. É truque velho de guerra cuja finalidade é se eximir de responsabilidades. O problema de fundo é a insuficiência de investimentos em todas as áreas: cultivo de cana, moagem, fábricas de açúcar e destilarias de álcool.

Com maior ou menor razão, produtores reclamam do avanço dos custos. As estimativas variam de acordo com o nível de eficiência de cada empresa, mas o número que circula é de que nos últimos cinco anos, o encarecimento da terra, do equipamento e da mão de obra puxaram os custos em cerca de 40%, enquanto os preços dos produtos finais ficaram para trás. A alta do açúcar em três anos foi superior a 100%, mas não compensou essas perdas. Enquanto isso, os do álcool permanecem achatados por terem de concorrer com os da gasolina.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan Consultoria, adverte que anos de abandono impedem a reversão em curto prazo deste quadro. “É apenas o início de uma fase ruim. Mesmo se todas as providências adequadas fossem tomadas imediatamente, só a partir de 2015 veríamos avanços significativos”.

Até 2020, mais de 80% da frota brasileira de veículos automotivos será dotada de motores flex e, no entanto, a perspectiva é de produção insuficiente de álcool, tanto hidratado (que vai direto no tanque) como anidro (misturado com a gasolina, hoje, à proporção de 20%). Isso significa que o País fica cada vez mais dependente da importação de álcool e de gasolina.

Embora tenha determinado que as questões do álcool passassem a ser tratadas no âmbito da Agência Nacional do Petróleo, o governo não tem uma política para ele. Até a terceira semana de novembro, os preços do álcool nos postos superam em 17,4% o valor médio de novembro de 2010. De novo, o problema começa no canavial, passa pelo bolso do motorista e segue sem solução. /COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

CONFIRA

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Tanto a dívida bruta como a dívida líquida do governo federal em relação ao PIB se mantêm relativamente estáveis. A diferença entre uma e outra são os créditos, especialmente as reservas internacionais administradas pelo Banco Central.

Copom. Ganhou certa força no mercado financeiro o prognóstico de que na próxima quarta-feira o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortará os juros básicos (Selic) em mais de meio ponto porcentual ao ano. Essa aposta é improvável. Os juros deverão cair para 11,00%.