Sob nova direção

Celso Ming

21 de novembro de 2011 | 19h45

Em somente duas semanas, caíram três dos cinco chefes de Estado que governavam o chamado grupo dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha): George Papandreou, da Grécia; Silvio Berlusconi, da Itália; e José Luis Rodriguez Zapatero, da Espanha.

Os três foram removidos pelo mesmo gigante engolidor de dirigentes políticos, movimento que nada tem a ver com ideologia. Simplesmente, a crise econômica foi maior do que eles.

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Rajoy. Sem margem para erros (FOTO: ENRIQUE CALVO/REUTERS)

Nesse fim de semana, a Espanha consagrou o conservador Mariano Rajoy (foto) com a maior vitória eleitoral dos últimos 30 anos. Seu partido, o Partido Popular, venceu em 177 dos 179 municípios e amealhou folgada maioria no Parlamento.

Mas os mesmos ventos que transferiram esse montão de votos para Rajoy podem levá-los embora. Ninguém sabe o que o novo governo pretende fazer para dominar a situação atual. Talvez nem mesmo Rajoy saiba claramente.

A Espanha tem a metade da dívida (60% do PIB) da Itália (120% do PIB). Apesar disso, seus títulos estão sob ataque há várias semanas e são obrigados a pagar rendimentos (yields) cada vez mais altos. Mas seu desemprego é recorde. Tem 5 milhões de trabalhadores – 22,6% da população ativa – em busca de trabalho (dados de setembro). O que mais preocupa é o número de jovens desempregados: nada menos que 50% deles. E é nesse segmento que cresce o Movimento dos Indignados. Assim, é o futuro que está sendo mais ameaçado (veja o Confira).

A paradeira econômica deve impedir que o PIB da Espanha (quarta maior economia do euro) avance mais do que 0,5% neste ano. Seu principal produto de exportação, o turismo (receitas anuais acima de 50 bilhões de euros), está sendo fortemente açoitado pelo colapso global, que está reduzindo o afluxo de visitantes.

Para sair da encalacrada não há outro remédio que não o convencional: cortes de despesas públicas, encolhimento de salários e aposentadorias, ganhos de produtividade e reformas para dar mais competitividade ao produto espanhol. Bom número de economistas avisa que esse é o caminho mais curto para a catástrofe, por diminuir a atividade econômica e a arrecadação e elevar o desemprego e as despesas com seguro social. No entanto, sem recursos em caixa, não há como providenciar investimentos públicos que façam a economia decolar.

Ao longo da campanha eleitoral, Rajoy foi lacônico sobre seus planos destinados a ganhar a confiança dos investidores. Não adiantou mais do que um vago pacote de “austeridade sem cortes”.

Por temperamento, não é dado a radicalidades e preferiria agir gradativamente. Mas raramente o tempo dos políticos converge com o dos mercados. Sob pena de perder sua força política agora arrebatada, terá de agir o quanto antes.

Sabe-se que pretende enxugar a administração pública e levar a cabo reforma trabalhista que simplifique o sistema de contratação de pessoal – numa economia de relevante uso de mão de obra temporária. Espera-se aumento da idade para aposentadoria e criação de fundo de capitalização que financie o seguro desemprego.

Isso tem um custo político. Rajoy começa a governar sem margem para erros. Seu maior risco é o de que seu enorme capital eleitoral desmorone rapidamente.

CONFIRA

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Você tem aí uma ficha da Espanha. A rejeição que seus títulos sofrem no mercado tem mais a ver com a falta de perspectivas de crescimento econômico e o alto nível de desemprego do que com estouro das despesas públicas.

A questão bancária. Uma das imposições da União Europeia é a Espanha capitalizar seus bancos. Rajoy tem se mostrado contra. Argumenta que os bancos espanhóis estão pouco expostos às dívidas da Grécia. Aparentemente, teme que essa exigência leve instituições financeiras da Espanha a desovar ativos para diminuir a exigência de capital e que isso bloqueie o crédito e a recuperação da economia.