Sobre a fragilidade

Sobre a fragilidade

Celso Ming

21 de fevereiro de 2014 | 21h00

O governo Dilma nem sempre é coerente nos seus diagnósticos e, até mesmo nas justificativas, às vezes, se enreda em contradições.

Depois de passar meses avisando que a ação dos grandes bancos centrais vinha produzindo estragos na economia – o argumento da guerra cambial provinha disso –, o ministro Guido Mantega tenta convencer o público e as autoridades estrangeiras de que o Brasil não está vulnerável aos vaivéns da política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).


G-20. Os emergentes no foco (FOTO: AFP)

A percepção corrente no exterior é a de que os países emergentes estão fazendo água. O Brasil, que encabeçava a sigla Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), dos países mais promissores, passou a integrar a lista dos “cinco mais frágeis” (Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia e Turquia).

Há 11 dias, foi a vez de o Fed repassar documento oficial ao Congresso dos Estados Unidos em que ficou dito que o Brasil é, entre as economias emergentes, a segunda mais vulnerável. O Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu quarta-feira que os emergentes estão mesmo a perigo.

E este é um dos temas centrais nos debates no Grupo dos 20 (G-20) que termina neste sábado em Sydney, na Austrália. Os países emergentes querem que o impacto sobre a economia deles seja levado em conta pelos grandes bancos centrais quando despejam ou retiram moeda do mercado. Nesta sexta-feira, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Jacob Lew, foi além e avisou que os emergentes estão vulneráveis não por culpa nem do Fed nem do governo dos Estados Unidos, mas por imprevidência e má condução da política econômica dos próprios emergentes. Que ponham ordem na casa e executem as reformas para melhorar o funcionamento dos seus sistemas imunológicos e deixar de afugentar os investidores. O secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Guria, fez intervenções na mesma direção.

O ministro Mantega agora tenta reverter essa impressão de que o Brasil não aguenta o tranco. Tem repetido que a economia está preparada porque tem reservas de US$ 376 bilhões e dívida pública sob controle, começou a puxar os juros para cima antes dos outros emergentes, em abril de 2013, e está apertando a política fiscal.

No entanto, nas explicações que dá para o baixo crescimento econômico, para a inflação de quase 6% ao ano e para o rombo nas contas externas (veja, a propósito, o Confira), Mantega insiste em que é a resposta à crise dos países ricos que provoca volatilidades demais e prejudica os emergentes.

O que conta é que nem os Estados Unidos, nem a União Europeia, nem mesmo a China mudarão o curso de suas políticas apenas porque os emergentes não gostam de bombear água para fora dos porões dos seus navios.

A única opção é fortalecer os navios, procedimento de que a presidente Dilma não parece convencida, seja porque não gosta de reformas e de austeridade, seja porque continua aferrada à ideia de que a economia brasileira não tem fragilidades.

CONFIRA:

Aí está a evolução do rombo das contas externas (Transações Correntes do Balanço de Pagamentos). Em 12 meses, já é de 3,67% do PIB. A entrada líquida de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) em janeiro só cobriu metade do rombo mensal, recorde histórico, de US$ 11,6 bilhões. No período de 12 meses terminado em janeiro, o IED equivaleu a 2,94% do PIB.

Vai melhorar? As autoridades do Banco Central esperam que o desempenho das exportações melhore com a desvalorização do real e melhore esse resultado. É esperar para ver.

Tudo o que sabemos sobre:

G20; Guido Mantega; balança comercial;