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Sumiu a oposição

Celso Ming

25 de outubro de 2011 | 19h45

Sob muitos aspectos, a reeleição da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, no último domingo, foi contundente. Obteve 54% dos votos em primeiro turno, ampla maioria no Congresso e, agora, de 24 governos provinciais, 21 estão nas mãos de aliados.

Seu marido, Nestor Kirchner, foi eleito presidente em 2003 com apenas 22% dos votos, o menor índice da história do país. Cristina mesmo não arrancou mais do que 45% em sua primeira vitória, em 2007. Agora, obteve a maior votação para a Presidência desde 1983.

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Cristina. Grande capital político (FOTO: CÉZARO DE LUCA/EFE)

O primeiro impulso dos analistas é atribuir esse desempenho aos bons resultados da economia que, em nove anos (desde o fundo do poço, em 2002) acumulou crescimento do PIB de 82,7% e, desde novembro de 1992, o menor índice de desemprego (7,3% da população ativa). É um excelente balanço, obtido graças ao sucesso das exportações que, por sua vez, se apoiaram na demanda crescente de China, Índia e Brasil.

Mas o consultor Dante Sica, secretário da Indústria no governo de transição do ex-presidente Eduardo Duhalde, adverte que não entende o fenômeno eleitoral Cristina Kirchner quem apenas tenta manipular planilhas Excell. O bom momento econômico é só um pedaço da explicação. A parte mais importante pode ser encontrada na força subjacente da cultura política argentina, agora eficientemente acionada, observa ele.

Esse complexo da cultura política não é somente a sensação de proteção que o Estado argentino vem transmitindo ao cidadão comum pela forte presença do setor público na economia e pela insistente política de transferência de riquezas do setor primário (produtores do setor agropecuário) para toda a sociedade, protegendo salários e benefícios previdenciários. É também pelo novo modo de o eleitor argentino ver a presidente após a morte de Nestor Kirchner, em outubro de 2010: “A viúva que passa determinação e firmeza”.

A vitória de Cristina aposenta grande número de políticos da velha guarda – Duhalde, Alfonsín (Ricardo, filho do ex-presidente Raul Alfonsín, falecido em 2009) e provavelmente Carrió – e traz para o centro do palco relevante grupo de quarentões dos quais o ainda ministro da Economia (vice-presidente eleito), Amado Boudou, é dos mais destacados representantes. A oposição, inteiramente fragmentada, praticamente desapareceu. Votaram em Cristina inclusive os ruralistas, segmento que ao longo de 2008 tentou fazer oposição cerrada a seu governo.

Para Dante Sica, a economia terá de ser administrada agora de forma a equacionar alguns dos mais importantes problemas macroeconômicos (inflação e oferta de energia), para não ter de usar demais a microeconomia (controle de preços, salários e tarifas). Do ponto de vista da política social, possivelmente o projeto mais importante é a implantação de um programa de saúde com boa abrangência, algo que falta à Argentina.

É da política que se esperam maiores novidades. Dante Sica crê que será muito difícil uma reforma constitucional que abra espaço para um terceiro mandato para Cristina. Mas ela deverá tentar que o Congresso, amplamente favorável, aprove a adoção do parlamentarismo. É a tentativa de esticar um período de hegemonia por meio de primeiros-ministros escolhidos a dedo. O que não deixaria de ser um contraponto inédito para quem busca explicações para esta eleição no substrato da cultura política da Argentina, que nunca adotou esse sistema de governo.

CONFIRA

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Cada vez mais. O Investimento Estrangeiro Direto (IED) em 12 meses terminados em setembro alcançou US$ 76,3 bilhões, maior volume da história. O Banco Central se surpreende a cada mês. Projetava, em janeiro, US$ 55 bilhões para todo o ano. Em agosto, US$ 60 bilhões. É provável que supere US$ 70 bilhões.

Serviços. Em 2011 (até o final de setembro), o setor com mais IED foi o de serviços (48,1%). A indústria ficou com 36,0% e o setor primário (de agricultura e mineração), com 15,3%. Outro 0,6% foi para aquisição de imóveis.

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