Tempo de falcões

Tempo de falcões

Celso Ming

06 de junho de 2013 | 20h00

Você pode ler e reler as nove páginas em letra miúda da ata da última reunião do Copom, mas não vai encontrar lá nenhuma justificativa nova para o aumento da dose dos juros de 0,25 (em abril) para 0,50 ponto porcentual (em maio). Nem terá as razões que, de um mês para outro, levaram dois pombos a se metamorfosearem em falcões. O que mudou – e isso é tudo – foi o tom, bem mais contundente do Copom.

(Pombo é aquele que puxa por juros mais baixos ou por não aumentá-los; falcão, o que ataca com instinto de rapina. Os pombos convertidos para a causa dos falcões são os diretores do Banco Central Aldo Luiz Mendes e Luiz Awazu Pereira da Silva.)

 

 

As explicações apresentadas já estavam presentes há três meses. São elas: inflação perto do teto da meta e espalhada demais; forte alta de preços dos serviços; propensão dos remarcadores de preços a exagerar nos reajustes (reindexação); política fiscal frouxa demais (expansionista); mercado de trabalho aquecido e salários subindo mais do que a produtividade; e consumo demais…

E, no entanto, o Copom entendeu que ficou insuficiente enfrentar a puxada dos preços apenas com a “cautela” costumeira. Por isso, passou a ser “tempestivo”. A saída é buscar as razões ocultas e avaliar certas pistas colhidas por aí.

O primeiro motivo oculto pode ser a forte disposição anterior, anunciada por várias autoridades, mas, especialmente, pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin, de gastar à vontade e de continuar aplicando descontos questionáveis nas metas de formação do superávit primário, a sobra de arrecadação para pagamento da dívida. O compromisso é poupar neste ano R$ 159,9 bilhões.

Augustin é daqueles para os quais meta fiscal e responsabilidade orçamentária são conceitos cultivados por fundamentalistas sem coração. Ele parece preferir as complacências, geralmente travestidas de iniciativas anticíclicas.

Como essa política fiscal frouxa não ajuda a controlar a inflação, sobrou para o Banco Central acionar com mais força a política monetária (política de juros). Na ata, ficou subentendido que metas fiscais não cumpridas vão exigir mais agressividade dos juros.

Segundo motivo, o jogo do mercado mundial de moedas está mudando. Em vez de fartura de dólares, a tendência é de relativa escassez. Ou seja, as pressões sobre o câmbio interno passam a ser geradoras de inflação, já que a alta do dólar tende a encarecer os produtos importados, cada vez mais indispensáveis. A ata admite a “tendência à apreciação do dólar”. Não foi além disso, mas talvez não seja preciso.

Uma terceira razão para o reforço dos juros, difundida na imprensa por “fontes do governo”, pode ter sido o aumento da angústia da presidente Dilma provocado pelo estrago da inflação, tanto no poder aquisitivo do brasileiro como nas intenções de voto. Foi o que teria dado força nova ao Banco Central.

Fica a percepção de que o combate à inflação com a arma dos juros ganhou prioridade. Pelo menos nas próximas duas reuniões do Copom, a perspectiva é de que a alta dos juros continue, provavelmente na mesma dose.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução das safras agrícolas nos últimos seis anos.

Piorou. Ao contrário do que têm dito a presidente Dilma e o ministro Guido Mantega, para os quais a inflação está em queda, a Ata do Copom afirma: “No curto prazo, a inflação em 12 meses ainda apresenta tendência de elevação e o balanço de riscos para o cenário prospectivo se apresenta desfavorável”.Também não há indicação de prazo para a inflação voltar à meta. O Banco Central não se compromete em garantir a convergência “ainda que de forma não linear”

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