Trabalho aquecido

Celso Ming

27 de janeiro de 2011 | 18h48

Se havia em novembro uma situação virtual de pleno emprego no Brasil, em dezembro ela foi reforçada. Como indicam os números do IBGE, o nível de desemprego caiu de 5,7% em novembro para 5,3% em dezembro, magnitude nunca antes observada.

Antes de prosseguir, convém eliminar eventuais dúvidas sobre o significado do pleno emprego. Não se pode vê-lo apenas como aquecimento excessivo do mercado de trabalho. O pleno emprego é condição fortemente desejada pelos administradores da economia. Pode-se dizer até que o principal objetivo da Política Econômica é criar empregos e boa qualidade de vida para a população em condições sustentáveis no longo prazo. Assim, se não dá para evitar um problema com que lidar, é melhor a situação de pleno emprego do que a de desemprego.

EmpregoDezembro2010.jpg

Essa é uma condição paradoxal do Brasil quando comparada com o que acontece no mundo rico. Lá a atividade econômica está em franca recuperação e, no entanto, o emprego de pessoal não consegue reagir. Tudo se passa nos Estados Unidos, como se o empresário tivesse descoberto nos dois últimos anos de crise que pode aumentar a produção de sua empresa sem ter de contratar mais gente. Basta para isso que invista alguma coisa mais em Tecnologia de Informação (controle eletrônico de estoques, controles online e internet).

Aqui no Brasil, a escassez de mão de obra permeia hoje toda a atividade econômica. Nesta quinta-feira, o gerente de Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, Cimar Azeredo, observou que não se pode aceitar sem questionamento o diagnóstico de pleno emprego, porque há as diferenças regionais. Ou seja, a falta da mão de obra que se vê no Sudeste não é a mesma do Nordeste. Mas esse critério não pode servir de base prática de análise. Não se eliminarão tão cedo no Brasil as diferenças entre as regiões. E, no entanto, as consequências econômicas do aquecimento excessivo do mercado de trabalho estão aí.

Para medir esse efeito, mais relevantes do que essas diferenças, é preciso levar em conta as necessidades setoriais. Onde a atividade econômica é importante no Brasil há hoje uma forte escassez de mão de obra, tanto de alta como de qualificação relativamente mais baixa. Falta engenheiro, piloto de avião, mecânico, mestre de obras, soldador, pedreiro, eletricista, pintor e, até mesmo, babá e empregada doméstica.

Na ata da última reunião do Copom divulgada nesta quinta, o Banco Central fez referência à “estreita margem de ociosidade dos fatores de produção, especialmente, de mão de obra”. E advertiu que essa situação conduz ao risco crescente de que os salários aumentem mais rapidamente do que a produtividade. Ou seja, o pleno emprego é fator que hoje concorre para acentuar a inflação já solta demais. E é nesse momento que mais se sente falta, nos grandes centros urbanos, de programas que se dediquem à recuperação e capacitação de pessoal.

Mas o antídoto para a inflação é conhecido: austeridade na condução das contas públicas e dinheiro mais apertado na economia.

CONFIRA

Ata ambígua. A ata do Copom divulgada nesta quinta-feira foi duramente fria na exposição dos problemas, mas amena no tom geral.

Meta ameaçada. Reconheceu que a incerteza aumentou, que a inflação foi longe demais e que ameaça a meta deste ano. A ata também foi muito clara quanto aos efeitos sobre os preços do excessivo aquecimento do mercado de trabalho (veja o texto acima).

A questão fiscal. Como das outras vezes, deixou claro que, para o combate à inflação, conta com a disciplina fiscal do governo federal. E admitiu veladamente que a força da política de juros depende da geração de superávits primários.

A solidão dos juros. Mas, também como das outras vezes, faltou a firmeza demonstrada por outros bancos centrais de que a autoridade monetária não pode ficar sozinha na guerra contra a inflação e de que, se é para cumprir a meta, a política fiscal do governo federal tem de ser mais consistente.