Trovoada lá fora

Celso Ming

23 de novembro de 2011 | 19h45

Nesta quarta-feira, três fatos mostraram forte deterioração da economia europeia.

(1) A Alemanha, economia mais sadia da Europa, não conseguiu comprador para todo o lote de seus títulos leiloados. Captou apenas 3,6 bilhões de euros, pouco mais da metade do volume pretendido.

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(2) O Banco da Grécia (banco central) não só avisou que a dívida ficou insustentável, mas também que o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuará ao menos 5,5% neste ano e outros 2,8% em 2012. E acrescentou que cresceu o risco de que a Grécia saia da área do euro.

(3) A Bélgica anunciou que ficou muito difícil garantir participação nas necessidades de capitalização do Banco Dexia, por exigir aumento proibitivo do seu endividamento.

Os três pontos merecem considerações à parte. As dificuldades que até a exemplar Alemanha passou a ter para rolar sua dívida refletem o início de séria crise de crédito. Em boa parte, essa baixa liquidez provém da necessidade que grande número de bancos passou a ter de reforçar seu capital. Para isso, passaram a despejar ativos no mercado. Não compram novos títulos, mesmo os altamente qualificados – como os da Alemanha.

Mesmo nos piores dias, não é normal autoridades de bancos centrais exagerarem em declarações alarmistas. Nesta quarta, o Banco da Grécia não fez questão de poupar tintas escuras. Pintou uma paisagem varrida por um tsunami. A simples declaração de que fica iminente a saída do euro deve provocar sangria de recursos do sistema financeiro grego. Analistas desconfiam tratar-se de teatro destinado a montar um clima para pedir mais concessões do núcleo do euro. Mas, depois de arrancar corte de 50% na dívida, o que mais o governo grego pretenderia?

Os obstáculos da Bélgica para capitalizar sua parte no Dexia mostram o que poderá acontecer se mais bancos forem obrigados a arranjar capital. O quase desespero com que o governo da França quer evitar a perda do triplo A na classificação de sua dívida mostra a corda bamba sobre a qual tem de se mover.

O agravamento da crise deixa poucas opções aos líderes do euro. Parece cada vez mais próximo o dia em que o governo de Berlim terá, enfim, de admitir que o Banco Central Europeu opere como emprestador de última instância aos Tesouros nacionais e que, assim, trabalhe como bombeiro – como o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), em 2008, depois da quebra do Lehman Brothers.

Em Brasília, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a advertir para a iminência de dias de convulsão e de ranger de dentes na economia global. Ele avisou nesta quarta-feira que as condições da economia global se agravaram e podem causar estrago semelhante ao de 2008, quando os mercados entraram em pânico.

O setor privado brasileiro tem dívidas em moeda estrangeira de US$ 240 bilhões. A disparada das cotações do dólar (veja no gráfico) no câmbio interno, efeito da crise externa de crédito, pode prejudicar resultados de grande número de empresas, a começar pela Petrobrás.

CONFIRA

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A expansão do crédito começa a dar sinais de moderação. Em parte, têm a ver com a greve dos bancários.

É mais embaixo. A Confederação Nacional da Indústria passou a bater no bumbo certo. O gerente executivo de Política Econômica, Flávio Castelo Branco, vem advertindo que o principal fator da baixa competitividade da indústria não está no câmbio. É o alto custo Brasil (juros e impostos altos, baixo nível de instrução da mão de obra, logística cara demais, etc.), que quase sempre ficou mascarado pela desvalorização cambial (dólar caro).