Vertigem e banalidade

Vertigem e banalidade

A vertigem é a derrubada das cotações do minério de ferro, o segundo item mais importante das exportações brasileiras e a banalidade é a “falha extremamente grave”, admitida na sexta-feira pelo próprio IBGE

Celso Ming

22 de setembro de 2014 | 21h00

Nesta segunda-feira, a coluna trata de uma vertigem e de uma banalidade.

A vertigem é a derrubada das cotações do minério de ferro, o segundo item mais importante das exportações brasileiras. Hoje, os preços resvalaram para abaixo dos US$ 80 por tonelada, para US$ 79,80. O máximo a que chegaram foi em meados de fevereiro de 2011, quando alcançaram os US$ 192 por tonelada (veja gráfico abaixo).

MinerioFerro22set

A escalada anterior contribuiu para a queda seguinte porque os preços muito atraentes colocados em marcha nos últimos cinco anos pela nova demanda da China e dos demais tigres asiáticos empurraram para o mercado mineradoras pouco competitivas.

Não há informações confiáveis sobre os estoques da China. Os especialistas apenas quantificam o que está nos portos, mas não têm ideia do que vai amontoado no interior do país. A retração dos preços acompanha o que já vinha acontecendo com outras commodities, tanto as metálicas como as alimentícias.

Do ponto de vista da economia do Brasil, vão crescendo evidências de que não dá mais para contar com a temporada dos preços altos das matérias-primas e, portanto, com um mesmo desempenho excelente da balança comercial. O impacto sobre as cotações do dólar no câmbio interno parece cada vez mais inevitável (veja o gráfico no Confira) e, com ele, pressões adicionais sobre a inflação. Com um dólar mais caro, os preços dos produtos importados também subirão.

A banalidade é a “falha extremamente grave”, admitida na sexta-feira pelo próprio IBGE, que cometeu erros primários no processamento dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a de maior amplitude para obtenção de uma boa foto do Brasil.

Domingo, a presidente Dilma fez uma surpreendente reavaliação do grave erro do IBGE, que aparentemente trocou algumas planilhas sem antes ter verificado com que dados estava alimentando seus computadores.

Dilma amanheceu com a cabeça inexplicavelmente mudada e redefiniu o erro do IBGE como apenas “banal”. Sexta-feira, sua atitude fora diferente. Ao saber do acontecido, ficou indignada, convocou a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para dar explicações públicas e instaurar uma comissão de sindicância para apurar a responsabilidade na falha “inaceitável”. A própria ministra Miriam avisara que a presidente Dilma ficara “absolutamente perplexa” e “chocada” com o ocorrido. No sábado pela manhã, enviara, além da ministra do Planejamento, outros três ministros para dar satisfações e ainda avisou que cobraria demissões e tal.

Nada explica por que, em 24 horas, uma “falha extremamente grave” foi rapidamente desclassificada para um acontecido apenas banal. Não é banal o IBGE cometer erros banais. Além disso, não basta expiar desastres assim apenas com sacrifícios humanos. É preciso entender por que isso aconteceu e por que acreditar em que nunca mais acontecerá.

(A coluna de sexta-feira havia analisado algumas conclusões da Pnad. Quando o IBGE apresentar todas as correções de suas séries estatísticas, essas análises também deverão ser revistas.)

CONFIRA:

Dolar22set

 

Nesta segunda, as cotações do dólar no câmbio interno chegaram às vizinhanças dos R$ 2,40. A alta acumulada no mês de setembro atingiu 6,82% e, em 12 meses, 7,93%.

Piorou
A Pesquisa Focus, por meio da qual o Banco Central afere as expectativas de cerca de cem consultorias, instituições financeiras e grandes empresas, mostrou ontem que, na semana passada, o mercado passou a projetar um desempenho ainda mais insatisfatório da economia brasileira em 2014: avanço do PIB de apenas 0,3% e inflação de 6,3%.

 

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