Vientos malos

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Vientos malos

Tanto o governo Dilma como o empresário se comportam como se a crise argentina terá curta duração, a ser revertida logo depois da virada de 2014 para 2015; É uma aposta de alto risco

Celso Ming

26 de setembro de 2014 | 21h00

Tanto o governo Dilma como o empresário se comportam como se a crise argentina terá curta duração, a ser revertida logo depois da virada de 2014 para 2015. É uma aposta de alto risco.

A ideia de que a partir de 2015 tudo será diferente baseia-se no pressuposto de que a Argentina conseguirá um novo acordo com seus credores.

Este, por sua vez, parece ter saído da perspectiva de que dia 31 de dezembro vencerá a cláusula Rufo (Rights upon future offers) que obriga a Argentina a estender a todos os credores o tratamento que viesse a dar a um grupo deles. Assim, se aceitasse as condições dos chamados holdouts, os credores que rejeitaram os termos da renegociação de 2001, o país não teria condições de honrar os compromissos com os demais e seria obrigado a novamente renegociar sua dívida.

Se fosse fechado um novo acordo com os credores que o fim da cláusula Rufo permitisse, a Argentina conseguiria reabrir portas para o financiamento externo, as importações aumentariam e parte das atuais restrições seria suspensa.

Mas não há sinais de que o governo de Cristina Kirchner se disponha a se entender com os holdouts, tidos hoje como inimigos. E, mesmo se conseguir um acordo, a falta de dólares tende a continuar elevada, não só porque há grandes vencimentos de títulos de renovação agora difícil, mas também porque as exportações tendem a cair, com a queda dos preços das commodities.

BLUE

O problema da Argentina parece maior do que o desprezo dispensado aos credores rebeldes. A atividade econômica está em queda livre. As projeções da consultoria Abeceb apontam um recuo do PIB em 2014 para algo ao redor dos 2,0%. O desemprego oscila pelos 7,5%. As reservas externas que, em 2011, estavam em US$ 45,9 bilhões deverão fechar este ano abaixo dos US$ 27 bilhões. A inflação real poderá saltar para além dos 30,0%. O câmbio paralelo vai sendo negociado nas cercanias dos 16 pesos por dólar, enquanto o oficial está a 8,46 pesos por dólar (veja o gráfico acima), o que é mais um sinal de que poucos acreditam na normalização das contas externas.

Nos oito primeiros meses do ano, as importações despencaram 20% e as exportações, 12%, tanto pela queda de preços como pela redução da produção. O rombo fiscal fechará o ano em 4,7% do PIB e tende a aumentar. De janeiro a agosto, as exportações de cereais, a força histórica do país, caíram 47%, não só pela redução das vendas físicas, mas também, pelo recuo no faturamento. Os preços estão deslizando na Bolsa de Chicago e tendem a ficar deprimidos, já que os estoques mundiais estão muito altos.

Como cerca de 10% das receitas tributárias provêm das retenciones (imposto sobre exportações), o tombo das vendas externas tem impacto na arrecadação e, assim, acentua o problema fiscal.

Por trás de tudo, agrava-se o problema político, porque o governo central já não pode nem atender à necessidade de recursos dos governadores das províncias nem aumentar as despesas sociais.

Não há nenhum programa que ao menos acene para uma melhora dessas condições. Depois do último calote, além de uma incógnita, um novo acordo com os credores levaria tempo para acontecer.

CONFIRA:

crédito

Aí está a evolução do crédito livre e do direcionado, aquele que os bancos têm de emprestar obrigatoriamente.

Devagar
O ministro da Fazenda deve estar desapontado com o avanço de apenas 5% em 12 meses (até agosto) do segmento livre do crédito, que equivale a cerca de 53% do total. Reflete, principalmente, a baixa demanda de crédito para a venda de veículos novos, faixa que pretendia incentivar com o pacote de julho. Em compensação, a inadimplência continua baixa tanto nas empresas (3,6%) quanto nas pessoas físicas (6,6%).

 

 

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