Virada do trimestre

Celso Ming

30 de março de 2010 | 19h15

Lá se foi o primeiro trimestre do ano que começou com a aposta de que seria de alentada recuperação da economia global e de forte crescimento da economia brasileira. Não foi e foi.

A percepção agora é a de que a situação externa continua muito complicada e que essa complicação compromete não propriamente o crescimento brasileiro deste ano, mas lança dúvidas sobre o que vem depois.

A crise global, a mais forte desde os anos 30, cumpre um processo de metamorfose. Começou em 2007 com a desvalorização dos ativos hipotecários nos Estados Unidos, avançou para a deterioração patrimonial dos grandes bancos e para o entupimento global dos canais de crédito.

A rápida e generalizada intervenção dos tesouros e dos bancos centrais conteve o desastre, mas os Estados nacionais saíram com profundas avarias nas suas finanças. Enfrentam agora o avanço do déficit orçamentário e das dívidas públicas. A execução da política fiscal dos Estados Unidos, por exemplo, aponta para um déficit orçamentário de US$ 1,5 trilhão em 2010 e dívida pública de US$ 14,8 trilhões em 2014, o equivalente a 85% do PIB (as projeções são do Fundo Monetário Internacional).

A deterioração fiscal da Grécia, Portugal e Espanha reflete o mesmo fenômeno no terreiro do euro, que há alguns meses parecia esbanjar solidez. Por toda parte do mundo rico, há queda do consumo, baixo crescimento econômico e redução das receitas públicas. O enfraquecimento das duas principais moedas de reserva internacional é o efeito do que acontece lá fora.

Como doenças desse tipo só se curam com aumento da poupança e recessão, parece inevitável a relativa estagnação do comércio global. A exceção nesse quadro é a recuperação de alguns países emergentes, especialmente China, Índia e Brasil, graças à expansão do consumo interno.

Por enquanto, não há inflação global a exigir elevação dos juros nos países de alta renda. No entanto, mais cedo ou mais tarde, o enorme volume de recursos despejado com objetivo de estancar a crise terá de ser enxugado. Quando os bancos centrais iniciarem a “estratégia de saída”, nova rodada de contenção do consumo e da produção deverá espraiar-se por esses países.

Tal cenário não é observado aqui no Brasil. Ao contrário, o ritmo do consumo e o aumento da atividade produtiva já são equivalentes ao período anterior à crise. O crescimento econômico previsto para este ano gira em torno dos 6%.

Mas a economia enfrenta problemas de outra ordem. O primeiro é o avanço do déficit em conta corrente (contas externas), não só em consequência do relativo estancamento das exportações, mas, sobretudo, pela disparada das importações, que crescem acima de 34% ao ano.

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Por trás disso está o aumento do consumo (de cerca de 7%), que, por sua vez, vai sendo empurrado pela disparada das despesas públicas (de 17%, no ano passado) e da expansão do crédito (de 15%). O principal resultado dessa situação é o avanço da inflação que tende a se elevar para além dos 5% neste ano e exigirá contra-ataque do Banco Central por meio do aperto monetário (alta dos juros).

De todo o modo, os resultados deste ano já estão dados. Uma nova onda negativa, em resposta ao que acontece no exterior, poderá vir em 2011, quando o governo será outro e será outra também a diretoria do Banco Central.

Confira

Dia do fico ou do não fico. É nesta quarta. Se o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, atender ao pedido do presidente Lula e permanecer à frente da entidade até final de dezembro, fica entendido que desiste da carreira de político. Se Dilma Rousseff for eleita presidente da República, Meirelles ainda pode aspirar por um cargo no Ministério. Se sair agora do Banco Central, apresenta-se como opção para composição na chapa de Dilma, como candidato a vice. Dada a baixa receptividade do nome de Meirelles junto aos cartolas do PMDB, parece baixa a possibilidade de que isso aconteça. Não devem ser levados a sério os comentários de que Meirelles quer ser governador de Goiás.

Retificação. A diretoria do Banco do Brasil lembra que, ao contrário do que constou na Coluna de terça, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não é o presidente do Conselho de Administração da instituição. O cargo é exercido no momento pelo secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

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