A batalha da comunicação está só começando

Cida Damasco

20 de fevereiro de 2019 | 11h23

No meio do intenso tiroteio provocado pela derrubada de Gustavo Bebianno do ministério e em clima de “tudo ou nada”, Bolsonaro foi hoje ao Congresso para encaminhar a proposta de reforma da Previdência. Uma demonstração da importância conferida a esse projeto e uma tentativa de virar a página da crise que tomou conta do governo em menos de dois meses de mandato, justamente no período em que o natural seria uma lua de mel com o eleitorado e com o Congresso.

A expectativa adicional é que essa visita aos parlamentares funcione como sinal de como o governo vai comunicar a reforma da Previdência. E é óbvio que a estratégia vai bem além da mudança de slogan providenciada pelos marqueteiros de plantão: nova Previdência no lugar de reforma.

Afinal de contas, quais devem ser os alvos e qual deve ser a mensagem nessa comunicação? Sejam leigos ou especialistas, os integrantes do público alvo têm de ser convencidos de que a situação é gravíssima e o risco de colapso está logo aí à frente. Mais ainda, que a proposta do ministro Paulo Guedes e sua equipe será suficiente para afastar esse risco por um bom tempo — e com um custo distribuído da forma mais igualitária possível.

Para o chamado público em geral, será necessário demonstrar por A + B que a Previdência está, sim, quebrada. E principalmente que não basta cobrar os devedores e evitar o assalto aos cofres públicos para acertar as contas. Quem nunca ouviu argumentos do tipo “se não houvesse tanto roubo, não seria preciso sacrificar os mais pobres”? Esse argumento vale para a Previdência, para a penúria da saúde pública e da educação, para a falência da infraestrutura e assim por diante. Nesse campo, a comunicação será tanto mais eficiente quanto mais o governo puder estufar o peito e falar “esta reforma é para todos”.

Uma segunda forma de abordagem, mais técnica, será necessária para debater com aquela turma negacionista, que se apega a teorias para mostrar que não há déficit da Previdência. Ou melhor, que se for considerada a Seguridade Social, mais ampla em termos de receitas e despesas,  o quadro é diferente. Como se, independentemente do conceito e da forma de contabilidade, o Tesouro fosse um saco sem fundo, capaz de dar conta de todas as suas responsabilidades e cobrir gastos previdenciários que explodem ano a ano.

Nesse caso, o objetivo não é exatamente convencer essa turma — até porque ela já tomou um lado do fla-flu que domina a sociedade brasileira nos últimos tempos e põe na roda desde os partidos políticos culpados pelo desastre de Brumadinho até o vilão/vilã da separação de um casal de celebridades. O importante, nesse caso, é tentar evitar que o negacionismo contamine a opinião geral sobre a reforma.

Por fim, a tarefa mais pesada da comunicação será convencer quem realmente vai definir a questão. O Congresso, senhor absoluto da reforma, aquele que garantiu a continuidade do mandato de Temer, enredado na Lava Jato, e obrigou-o a pôr na gaveta a proposta da Previdência. E é aí que todos os interesses e interessados se juntam: lobbies corporativos, lobbies regionais, negacionistas, reformistas militantes, e “até” os cidadãos comuns.

Já se disse várias vezes que, pela primeira vez, há um clima favorável para mudanças na Previdência.  Até vozes importantes da oposição, como o ex-ministro Nelson Barbosa, reconhecem a necessidade urgente de mudanças.

Segundo um levantamento divulgado pelo BTG-Pactual, por exemplo, mais de 80% de deputados e senadores apoiam a reforma e acreditam que ela será aprovada ainda neste semestre, embora façam ressalvas sobre alguns pontos da proposta. Outra pesquisa, da XP Investimentos, mostra que 70% dos entrevistados rejeitam a idade mínima proposta por Bolsonaro. E, para 63% dos executivos ouvidos recentemente pela Câmara Americana do Comércio, a expectativa é de que sairá uma reforma neste ano, um projeto que não vai abranger todos os setores da sociedade, mas com impacto positivo nas contas públicas.

A questão, contudo, é que a fabricação de uma crise com o PSL, exatamente num momento em que será posta à prova a articulação política do governo Bolsonaro, expõe a sempre existente fragilidade de bases parlamentares — já está aí, à vista de todos, a derrota na Câmara do projeto de lei de sigilo de dados.

A batalha da comunicação da reforma da Previdência está só começando. E pode ser mais custosa do que se imaginava.