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A indústria sem tração

Cida Damasco

01 de agosto de 2019 | 16h45

Um dia depois de o Copom derrubar o juro básico para o nível mais baixo da história, de 6% ao ano, a divulgação da produção industrial de junho comprova que, de fato, a atividade econômica precisa de muitos estímulos. Além, inclusive, do providenciado pela política monetária. Foi um festival de resultados negativos, por qualquer base de comparação. Segundo o IBGE, a indústria registrou em junho uma queda de 0,6% sobre maio e de 5,9% sobre o mesmo mês do ano passado. No semestre, a redução foi de 1,6% e, no acumulado em 12 meses, de 0,8%.

Trata-se do terceiro trimestre consecutivo no vermelho e, em junho, os números negativos foram disseminados por todas as categorias — bens de capital, intermediários e de consumo. Mais ainda: para não deixar nenhuma dúvida sobre a crise da indústria, basta verificar que o setor trabalha, hoje, no patamar do início de 2009. O indicador do nível de atividade da indústria paulista, acompanhado pela Fiesp, vai numa direção parecida, com baixas  de 0,8% de maio para junho e de 5,6% frente a junho de 2018, mas com uma alta moderada de 1,1% no semestre.

A queda da produção industrial em junho, superior à média das projeções de analistas, joga um balde de água fria em comemorações, aparentemente precipitadas, de um ensaio de retomada nos últimos meses, o que tende a minar a confiança de empresários e consumidores. Além disso, acende um sinal de alerta não só em relação ao fechamento dos números do PIB no segundo trimestre como também à falta de tração para uma melhora da atividade econômica nos próximos meses.

O fato é que a indústria brasileira sofre de outros males, agravados pela conjuntura desfavorável. Defasagem tecnológica e atraso em inovação expõem a falta de competitividade do setor. O que pode se tornar fatal, diante das iniciativas do País em direção a uma abertura efetiva da economia — como o acordo do Mercosul com a União Europeia, assinado há pouco mais de um mês e ainda à espera do aval dos Parlamentos dos países, e o acordo comercial com os Estados Unidos, em início de negociações, nas palavras do ministro da Economia, Paulo Guedes.

É muito longa a distância entre a realidade da indústria local e as exigências da chamada indústria 4.0, caracterizada pela conexão das várias etapas produtivas, por meio da tecnologia. E vencer essa distância exige pesados investimentos, que obviamente não combinam com um cenário de crise. Pesquisa liderada pela CNI com 759 grandes e médias empresas brasileiras, neste primeiro semestre, mostrou que apenas 1,6% enquadravam-se nessa categoria e pouco mais de 20% projetavam atingir a meta num horizonte de 10 anos.

Os técnicos do IBGE não veem sinais de uma recuperação da produção industrial a curto prazo, considerando-se os os fatores conjunturais de desestímulo à atividade do setor, entre eles o desemprego em níveis elevados, o insatisfatório desempenho das exportações de alguns produtos e o aumento de estoques. O risco, então, é que por muito tempo ainda a indústria brasileira permaneça apartada da indústria 4.0.

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