A lista e as reformas

Cida Damasco

15 de março de 2017 | 19h58

Passada a comoção inicial da lista de Janot, começam as apostas sobre o destino das reformas constitucionais no Congresso. São tantas as variáveis que deverão atuar nesse caso, que o cenário pode ir da paralisação ao avanço das reformas, notadamente a da Previdência, que é o centro das atenções do Planalto e também dos ataques dos “contra” – instalados não só na oposição como também em áreas da própria base parlamentar de Temer.

A lógica diria que a extensão da lista, a demora na divulgação dos nomes dos “coadjuvantes” nos 83 pedidos de inquéritos entregues nesta terça-feira, 14, ao Supremo pela Procuradoria Geral da República, tendem a paralisar o Congresso, que não sabe exatamente quando e onde tudo isso vai dar. Ainda mais que estão nessa lista os líderes das duas casas, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o senador Eunício de Oliveira (PMDB-CE), aqueles que deveriam pavimentar a estrada para dar seguimento às emendas constitucionais.

Aliás, se for para falar em negociações prioritárias neste momento, certamente há mais gente no Congresso com pressa da tal reforma política – que pode ressuscitar a anistia ao caixa 2 –, ditada pelo interesse puro e simples de salvar a própria pele. Antes de salvar a Previdência, o ajuste fiscal, o crescimento sustentado da economia brasileira e assim por diante.

Os mesmos argumentos valem, porém, para o cenário oposto. É tanta a barafunda que o governo pode aproveitar uma brecha e pôr para andar as reformas, até para se cacifar junto ao seu “eleitorado” preferencial – mercados e setores empresariais. Por esse raciocínio, quanto mais rápido o Planalto providenciar mudanças indigestas, como é o caso da Previdência, maior será a chance de escapar do calendário eleitoral. Pelo menos explicitamente, já que a campanha eleitoral corre solta há bom tempo, como é sabido, mas com candidaturas para lá de incertas.

Será que dá para fazer essa segunda aposta? É mais ou menos como acontece naqueles “disaster movies”, em que o protagonista tem segundos para escapar das cinzas do vulcão ou do tsunami, e ainda volta para salvar a mocinha ou o cachorro da família.

As manifestações desta quarta-feira contra a reforma da Previdência, embora muito longe da greve geral anunciada pelas centrais e sindicatos, mostraram que há fôlego para tentar forçar recuos na proposta do Planalto. Marcadas antecipadamente, acabaram coincidindo com o “day after” da lista de Janot, azedando mais ainda o clima.

É bom lembrar ainda que o ministro encarregado das articulações políticas para a reforma, Eliseu Padilha, volta da sua licença médica para a chefia da Casa Civil justamente quando é incluído na lista de Janot – o que era mais do que esperado — e ainda vira alvo de inquérito para investigação de crime ambiental no Rio Grande do Sul.

O mercado reagiu com frieza ao envio da lista de Janot. Certamente acreditando que dará tempo de o protagonista do filme escapar do desastre. Ou seja, de o governo tocar em frente as reformas, enquanto, lentamente, os inquéritos percorrem seu trajeto na Justiça. No jargão do mercado, a lista de Janot estava “precificada”. Falta saber se, no Congresso e nas ruas, também estará.

 

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