A usina de crises a pleno vapor

Cida Damasco

16 de junho de 2019 | 12h15

Um dia depois de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmar que o governo Bolsonaro é uma usina de crises, veio mais uma prova contundente de que essa não era apenas uma frase de efeito. Num episódio espantoso,  Bolsonaro saiu dizendo neste sábado que “estava por aqui” com o presidente do  BNDES, Joaquim Levy,  e que a cabeça de Levy estava a prêmio. Nada parecido com explicações protocolares, típicas desses momentos, como “temos divergências sobre prioridades” e outras na mesma linha. Foi na lata, para usar uma expressão que combina com o estilo atual.

Lógico que Levy bateu em retirada logo em seguida, com uma carta de demissão sucinta e elegante dirigida ao chefe e amigo Paulo Guedes, nesta manhã de domingo. Motivo alegado para a demissão: Levy recrutou um diretor que já havia trabalhado no governo do PT. Como se fosse algum segredo o fato de o próprio Levy ter sido ministro da Fazenda de Dilma Rousseff.

O absurdo do episódio, porém, não esconde uma questão importante. O que o governo quer para o BNDES e, principalmente, o que o governo quer do BNDES?  Dirão os observadores que ele quer, de fato, abrir a caixa preta do BNDES — missão à qual Levy vinha resistindo. Muitos bolsonaristas tinham a ilusão de que, no dia seguinte em que Levy se sentasse na cadeira da presidência do BNDES, viriam a público todas as explicações e todos nomes dos responsáveis pelas operações suspeitas do banco.

Não adiantava lembrar que o presidente anterior, na gestão de Temer, Dyogo Oliveira, também foi cobrado e afirmou várias vezes que, nos quadros do banco, não foram encontradas essas digitais. Afinal de contas, as justificativas apresentadas por Oliveira eram igualmente questionadas, porque ele também havia desempenhado funções importantes no governo Dilma — secretário-executivo do Planejamento e depois da Fazenda.

Vamos raciocinar, porém, que tenha muita coisa nessa caixa preta e, mais dia menos dia, tudo isso fique às claras. A segunda pergunta permanece, mais atual do que nunca, diante do atoleiro em que se encontra a economia brasileira e da necessidade urgente de retomada dos investimentos. Qual é o BNDES que está na cabeça da equipe econômica? O banco fechou 2018 com uma carteira de empréstimos de R$ 520 bilhões — em comparação com R$ 560 bilhões em 2017 e R$ 624 bilhões em 2016 — e um lucro líquido de R$ 6,7 bilhões, 8,5% acima do registrado no ano anterior, ancorado na venda de participações societárias.

Até o momento, o que concentra os debates é com quanto o BNDES pode contribuir para ajudar a reduzir o buraco das finanças públicas. A estimativa é que o banco devolva ao Tesouro algo próximo de R$ 126 bilhões até o fim do ano. Porém, se for aprovado, o novo texto da reforma da Previdência pode comprometer as futuras devoluções, já que uma das propostas é recorrer a um dinheiro originalmente destinado ao BNDES, para fechar as contas e se aproximar daquele R$ 1 trilhão de ganhos fiscais projetado para 10 anos — mais especificamente, 28% da arrecadação do PIS-Pasep seriam destinados à Previdência, e não mais ao BNDES.

Levy vinha insistindo na tese de que o banco teria de fazer um desmame dos recursos do Tesouro, e partir para uma reinvenção, liderando a nova rodada de privatizações e estabelecendo parcerias com o setor privado nas áreas de inovação, transporte e energia limpa — como afirmou em recente entrevista ao Estadão. Não chegou lá. E crescem as dúvidas sobre o papel do BNDES no cenário desenhado pela equipe econômica do governo Bolsonaro.

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