Amigo secreto

Cida Damasco

19 Novembro 2016 | 13h10

 

Pelo visto, o governo federal não conseguirá isolar a crise dos Estados, como muitos desejavam. O risco de que o calote de salários se alastre, no meio de um clima econômico de desânimo e incertezas e de um ambiente político de temperatura elevada, aparentemente está conduzindo a banda política do governo Temer a buscar uma solução digamos menos “ortodoxa” para ajudar os Estados. Dinheiro nos cofres dos governadores, exatamente como a equipe econômica queria evitar.

O ministro-chefe da Casa Civil e porta-voz dessa ala, Eliseu Padilha, defendeu nesta sexta-feira, 18, que o BNDES entre nesse jogo. De acordo com Padilha, os tais RS$ 100 bilhões que serão devolvidos pelo BNDES ao Tesouro – e que já causaram tanta polêmica, pois há quem diga que essa devolução não seria exatamente legal  – se juntariam ao dinheiro da repatriação e iriam para os Estados. Isso, ainda segundo Padilha, com contrapartidas de controle fiscal a serem acompanhadas com lupa pelo governo federal.  O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, porém, apressou-se em afirmar que esse dinheiro está reservado para amortizar a dívida pública. Segundo ele, foi apenas uma alternativa discutida dentro do governo, como tantas outras.

Mais que um mero desencontro entre autoridades, o que tem sido comum, trata-se de um impasse a que o governo está submetido nesse momento. Está bem, não se pode desmoralizar o ajuste fiscal – a PEC dos gastos ainda não passou pelo plenário do Senado. Não se pode patrocinar gestões irresponsáveis e tudo aquilo que já se conhece. Mas também não dá para fechar os olhos para a crise dos Estados – que salta dos relatórios oficiais para as salas das universidades federais, para as dependências dos hospitais e para os bolsos dos servidores públicos. Uma aula e tanto para quem está afeito unicamente ao trato com números e teorias econômicas.

Além disso, não dá para desagradar governadores, quando é preciso arrebanhar apoiadores para os próximos projetos do governo – ao que tudo indica, para “o” próximo projeto do governo, ou seja, a reforma da Previdência. Isso tudo somado dá para dizer o seguinte: deve sair um presente de amigo secreto (ou oculto) para os Estados neste final de ano. Só não se sabe se será um presente mesmo ou apenas uma “lembrancinha” e se virá logo ou não passará de uma promessa para 2017.

Tudo indica que está nessa linha o arranjo de governadores com o objetivo de apresentar ao governo federal um plano de reforma previdenciária que inclua as previdências dos setor público estadual – em troca de um esquema de compra dos ativos dos Estados pela União, para permitir que eles possam receber algo como R$ 150 bilhões nos próximos dois a três anos a três anos, exatamente para sanear suas previdências.

E o Rio, como fica?

Bem, aí é uma história mais complicada. Claro que o Rio será beneficiado pela ajuda federal. Até porque é o caso mais emblemático — e mais agudo — da crise dos Estados. Mas o “pacote de maldades” de Pezão tem destino incerto e não sabido. Depois das ruidosas prisões dos ex-governadores Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, antes de qualquer coisa Pezão terá de escapar dos escombros do PMDB do Rio.