Aposta em queda de juro é unânime. Mas impacto na retomada é incerto

Cida Damasco

18 de setembro de 2019 | 18h43

Deflação na prévia de setembro do IGP-M, PIB no vermelho em julho, segundo o Monitor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), só para citar os indicadores mais recentes e, compreensivelmente, muita pressão sobre a equipe econômica. É como se todos dissessem, ao mesmo tempo: “façam alguma coisa para a economia andar”. E alguma coisa, nesse momento, parece ser a política de juros, principalmente diante das divergências em torno de outras medidas para se estimular a demanda, como é o caso da política fiscal.

Não é por outro motivo que dez entre dez analistas apostavam no corte de 0,5 ponto no juro básico, para 5,5% ao ano, na reunião desta quarta-feira do Copom. A taxa Selic caiu para o menor nível da história, com tendência de nova baixa ou novas baixas até o fim do ano. As perguntas que surgem agora, em seguida à mais do que esperada decisão do Banco Central (BC), são principalmente duas: 1) qual será o impacto desse juro baixo sobre a economia? 2) como o cenário internacional poderá influenciar as expectativas para as próximas reuniões?

No primeiro caso, pode-se dizer que o efeito maior será sobre a dívida pública da União, que já beira os R$ 4 trilhões. Uma redução de meio ponto na Selic pode significar algo como R$ 20 bilhões a menos no endividamento. Nada desprezível, como se pode ver. Em relação a um incentivo específico ao consumo, no entanto, as coisas são um pouco diferentes. O impacto da chamada “taxa estimulativa”, à qual costuma se referir o BC, é amortecido pela persistente distância entre os juros básicos e os da vida real, aqueles cobrados pelas instituições financeiras nos empréstimos a pessoas físicas e mesmo às empresas.

Os números do BC em julho mostram que, apesar das seguidas reduções, essa distância continua enorme. A taxa média das operações contratadas no mês estava em 25% ao ano, enquanto no crédito livre e no destinado às famílias atingiu respectivamente 38% e 52% ao ano, frente a uma Selic de 6% — sem contar os juros estratosféricos em linhas com cheque especial e cartão de crédito.

Além disso, o próprio consumidor se mantém distante das agências bancárias e das lojas, em razão dos elevados níveis de endividamento. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), quase 65% das famílias estavam endividadas em agosto e a inadimplência correspondia a quase um quarto do total. É limitado, portanto, o efeito da “taxa estimulativa”, para movimentar significativamente o mercado, ainda que a liberação dos saques de FGTS e PIS/Pasep possa dar um certo impulso.

Quanto ao cenário internacional, tudo indica que, por enquanto, o BC mantém uma atitude de observação cautelos. A ameaça de um novo choque de petróleo depois do ataque às instalações petrolíferas da Arábia Saudita não se concretizou e, de toda forma, encontraria o País bem mais preparado para enfrentá-lo. Mas a tensão não se desfez totalmente e só amplia os temores já existentes de uma desaceleração da economia mundial — que pode até se transformar em recessão.

A decisão de hoje do Fed, o banco central americano, de cortar juros para 1,75% ao ano e injetar quase US$ 130 bilhões na economia, acompanha a de outros bancos centrais, e visa justamente atenuar os riscos para a economia global. O comunicado do Copom, no final da reunião desta quarta-feira, confirma a cautela do BC. Segundo o documento, os “estímulos monetários adicionais nas principais economias tem sido capaz de produzir ambiente relativamente favorável para as economias emergentes”, mas o cenário continua incerto e “os riscos associados a uma desaceleração mais intensa da economia permanecem.”

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