Ar de normalidade

Cida Damasco

12 de abril de 2017 | 19h23

Tudo conforme o esperado. O Copom cortou a taxa Selic, o juro básico, em 1 ponto porcentual, para 11,25% ao ano. O Banco Central aperta o passo para acompanhar o escorregão da inflação – que já está no centro da meta de 4,5%, caminha para ficar bem abaixo desse patamar no fechamento do ano e já justifica uma revisão do alvo para 2018. O mercado financeiro reforça suas apostas numa queda de juros abaixo dos 9% até o fim do ano. E os empresários do setor produtivo elogiam discretamente a decisão, pedem redução dos spreads bancários e tentam se animar com a esperança de que a retomada da atividade econômica venha mais rápido pela via dos juros.

Foi só o Copom que manteve o ar de normalidade ou a economia tem condições de continuar andando, como se não tivesse ocorrido a avalanche desta terça-feira, com a divulgação da lista de Fachin, que soterrou políticos de A a Z, sacudiu o esquema Lula-Dilma e pôs o governo Temer na defensiva, com a autorização para investigação de 8 ministros, presidentes do Senado e da Câmara e deputados relatores de reformas prioritárias?

O comportamento do mercado no dia de hoje pode dar a impressão de que a lista de Fachin já está precificada. Como destacou o colega Fábio Alves no comentário divulgado no início da quarta-feira pelo portal Estadão, o mercado até bocejou diante desse noticiário. Tudo indica que o dólar e a Bovespa passaram pela prova do “day after” e fecharam o dia com resultados lidos como razoáveis diante do tamanho da crise.

Esse distanciamento “brechtiano” que o mercado parece manter dos fatos políticos, contudo, pode ser superado a qualquer momento. Em sã consciência, ninguém tem condições hoje de projetar com segurança como será o andamento das reformas  no Congresso, apesar das palavras de ordem do Planalto para que se preserve a “normalidade”.  O desejo é que a “pauta positiva” das reformas ajude a dissipar o clima de “fim do mundo” criado por essa etapa da Lava Jato. Mas é bom lembrar que, à frente das reformas da Previdência e política, estão justamente políticos integrantes da lista de Fachin: respectivamente os deputados Arthur Maia (PPS-BA) e Vicente Cândido (PT-SP).

Difícil imaginar que o Congresso da Lava Jato e o Congresso das reformas sejam duas entidades separadas – cada uma com suas atribuições específicas e seus interesses específicos. Se a “união” das duas entidades se confirmar, já dá para imaginar o grau de contaminação do ambiente econômico — que passará, obviamente, pelos mercados. Se o governo Temer, contudo, conseguir a proeza de operar com essa separação, pode até ser que a economia mantenha sua trajetória, sem grandes sobressaltos. Rumo às “emoções” da campanha eleitoral de 2018.