Baixar mais os juros ou não, eis a questão

Cida Damasco

20 de março de 2019 | 19h22

Se a tese de fixar uma taxa Selic “estimulativa” fosse levada com mais determinação, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, 20 de março, poderia até ser considerada tímida, ainda que amplamente esperada por analistas e investidores. Ou seja, diante da fraqueza da atividade econômica neste começo de ano, o Banco Central (BC) teria justificativas para pelo menos indicar essa alternativa no comunicado pós-reunião, mesmo mantendo o juro básico em 6,5% ao ano, pela oitava vez seguida.

São preocupantes os números divulgados nesta semana relativos ao desempenho da economia em janeiro. O Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) mostrou uma queda de 0,41% de dezembro para janeiro, já descontados os efeitos sazonais, e situou-se no menor nível desde outubro de 2018. E o Monitor do PIB, medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou, também para janeiro, uma alta de apenas 0,3% na mesma base de comparação e de 1,1% em relação a janeiro de 2018 — resultados “no azul”, mas que confirmam a perda de fôlego da economia do final do ano para cá.

Não é por outra razão que, de acordo com a pesquisa Focus mais recente, os mercados já se mostram mais céticos sobre a tal da retomada. A projeção de crescimento do PIB para 2019 caiu de quase 2,3% para 2%, em apenas uma semana, e está 0,5 ponto abaixo da estimativa feita no final de 2018 — sem contar que, na época, alguns analistas mais otimistas chegavam a falar em algo mais próximo de 3%.

Uma outra face do mesmo quadro é o comportamento da inflação. É verdade que ocorreram picos de preços de alguns produtos importantes na cesta de consumo da população, como o feijão e o tomate, o que tende a alimentar comentários do tipo “a vida está cada vez mais cara” e a dar a impressão de que há pressões inflacionárias.

A realidade, porém, é que a inflação continua espelhando a fraca demanda. Segundo a mesma pesquisa Focus, a previsão para o ano é de um IPCA de 3,89%%, em comparação com o centro da meta de 4,25%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo.

Por que, então, não há concordância sobre a conveniência de recorrer a uma nova redução de juros? Por enquanto, a  visão dominante é de que isso não seria recomendável, já que o futuro da economia ainda é incerto, em razão da vulnerabilidade do quadro fiscal  — especialmente da Previdência.

Parece claro que juros baixos não têm mais conseguido estimular nem o consumo nem o investimento. Na vida real, para quem quer tomar algum empréstimo ou financiar a compra de algum bem, os juros continuam bastante elevados, apesar do patamar reduzido da taxa Selic. E, para investidores em potencial, as dúvidas sobre a economia continuam pesando mais do que os juros.

No fundo, o debate está entre quem considera que, nesse cenário desfavorável, uma nova rodada de baixa de juros teria efeitos bastante limitados  e quem acredita que essa rodada conseguiria justamente aliviar esse quadro.

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