Balão furado

Cida Damasco

09 Setembro 2016 | 18h19

Começou mal o debate sobre reforma trabalhista. Em encontro com sindicalistas de 19 Estados, o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, disse que a proposta do governo incluía ampliar a jornada de trabalho para até 12 horas. Foi o suficiente. A declaração incendiou as redes sociais, provocou a ira de trabalhadores e políticos de oposição e, em menos de 24 horas, teve de ser desmentida.

“Orientado” pelo presidente Michel Temer, o ministro explicou que citou apenas um exemplo hipotético e que uma jornada de 12 horas seria mesmo “escravidão”. Mais ainda: garantiu que jornada de trabalho, 13º salário, férias e fundo de garantia são direitos consolidados.

Verdade seja dita, na tal entrevista polêmica, o ministro já havia esclarecido que a ampliação da jornada de 8 para até 12 horas seria apenas uma flexibilização. O limite semanal continuaria em 44 horas, com mais 4 extras: haveria a possibilidade de alterar a distribuição dessa carga pelos dias da semana. Mas, pela reação do público, muitos nem passaram para a segunda parte.

Ainda dentro da reforma trabalhista, o Ministério da Fazenda também teve de fazer o seu recuo. Desmentiu a intenção do governo de mudar as regras do FGTS. Segundo a Fazenda, o lançamento de um edital para a elaboração de um estudo sobre o tema indicaria apenas o objetivo de acumular subsídios para promover discussões internas.

Se não há intenção de mexer em nenhuma dessas duas coisas, foi ruído desnecessário. Ou melhor, ruído prejudicial a um debate consequente. Dando nome aos bois, o ministro do Trabalho foi no mínimo inexperiente ao tratar de uma hipótese tão explosiva na conversa com uma parte dos interessados – na verdade, a que seria prejudicada caso essa “escravidão” vingasse.

Se alguém está pensando nisso dentro do Planalto, e recorreu à velha alternativa do “balão de ensaio”, a complicação é maior ainda. Um desmentido agora seguido de uma confirmação mais tarde pode minar a confiança do governo e emperrar ainda mais o encaminhamento da reforma trabalhista.