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BC fica na defensiva, mercados “namoram” juro mais baixo

Cida Damasco

19 de junho de 2019 | 19h59

Em recente debate na Fundação Getúlio Vargas (FGC), o economista Sérgio Werlang, visto como pai do sistema de metas de inflação no Brasil, foi uma voz dissonante sobre a política de juros mais adequada para o momento. Contra os outros participantes do evento, ele defendeu um corte na taxa Selic antes mesmo da aprovação da reforma da Previdência. E seu argumento foi simples e direto: por que apertar ainda mais a economia, que continua no estilo “devagar quase parando” e, por isso mesmo, mantém a inflação quase no chão, com possibilidade de encerrar o ano abaixo do centro da meta oficial?

O Banco Central (BC), pelo visto, ainda reluta em aderir a essa tese. Na reunião do Copom desta quarta-feira, o juro básico permaneceu em 6,5% ao ano, o menor da história, pela décima vez consecutiva — e o comunicado divulgado depois do encontro bateu na tecla de que “os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas da inflação”.

Aumentam as expectativas, porém, de que, salvo alguma forte turbulência no cenário externo e/ou interno, em breve o BC partirá para uma nova redução de juros. Até lá, inclusive, a reforma da Previdência já terá dado mais alguns passos  — o que ajudaria a justificar o “timing” da decisão. Nos mercados, a aposta majoritária é numa queda da Selic a partir de setembro. Três cortes consecutivos levariam a taxa para 5,75% em dezembro, segundo a pesquisa Focus mais recente. Os juros futuros, por sinal, já refletem esse cenário.

As previsões de derrubada da Selic ancoram-se, evidentemente, na persistente estagnação da economia — que tem fomentado uma certa impaciência com a falta de iniciativas de curto prazo, por parte da equipe econômica. As projeções de crescimento do PIB para este ano escorregaram para baixo de 1%.  E tanto o IBC-Br, calculado pelo Banco Central, como o Monitor do PIB, da FGV,  mostram que, depois de um trimestre muito ruim, abril também não trouxe boas notícias. O IBC-Br caiu 0.47% sobre o mês anterior e atingiu o menor nível desde maio do ano passado. e o Monitor do PIB teve uma leve redução, de 0,1%. Os próprios integrantes do Copom reconhecem, no comunicado, a “interrupção do processo de recuperação da economia brasileira nos últimos trimestres” e veem a “retomada desse processo adiante, de maneira gradual.”

Que a taxa atual não está sendo “estimulativa”,  ao contrário do que repetem comunicados e atas do Copom há vários meses, parece claro. Até porque os juros da vida real, aqueles que empresas e pessoas físicas pagam aos bancos, não acompanharam o ritmo de queda da Selic. Especialistas apresentam mil e uma razões para essa resistência, mas o fato é que numa estrutura em que cinco bancos detêm mais de 80% dos ativos financeiros, não dá para falar em concorrência que seja capaz de empurrar para baixo o “preço” do dinheiro.

A questão é o quanto — e em que prazo — a Selic precisaria cair, para produzir efeitos consideráveis na atividade econômica o mais cedo possível. Há quem diga que o BC já deveria ter iniciado esse movimento. Afinal de contas, o juro básico, em termos reais, está nas proximidades de 2,5% ao ano — e, com a paradeira geral, não haveria perigo de pressões sobre a demanda e, por tabela, sobre a inflação, caso a taxa real caísse algo como 1 ponto.

Sempre é bom lembrar que, lá fora, países que enfrentam ou temem desaceleração têm recorrido a juro zero ou até negativo. O próprio Fed, o banco central dos Estados Unidos, manteve os juros nominais estáveis em 2,25% a 2,5% ao ano, mas abriu as portas para novos cortes no futuro.

Tudo ponderado, o mais razoável é contar com uma nova rodada de redução de juros, mas com efeitos limitados e só a partir de 2020.

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