BC leva o barco

Cida Damasco

19 Setembro 2018 | 20h15

Na antepenúltima reunião do governo Temer, os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom), sem surpresas, mantiveram o juro básico em 6,5% ao ano, em meio a um cenário de atividade econômica “devagar quase parando” e de inflação ainda resistindo às pressões exercidas pela alta persistente do dólar. Decisão unânime, que avalizou as apostas nos mercados nas últimas semanas. Mais uma reunião em que a equipe do Banco Central (BC) procura levar o barco até a mudança do governo, sem fazer muita marola.

Nem mesmo o comunicado divulgado logo depois da decisão desta quarta-feira, 19 de setembro, trouxe alguma novidade relevante para analistas e investidores — e era esse o ponto que despertava maior interesse do público especializado. Quanto ao público em geral, este não parece mais tão sensibilizado com as decisões do Copom, diante do fato que, apesar da derrubada da taxa básica para o nível historicamente mais baixo, os juros da vida real continuam nas alturas.

O documento citou que a retomada da economia está ocorrendo num “ritmo mais gradual do que o vislumbrado no início do ano”, justificando por isso uma “política monetária estimulativa”. Ou, em bom português, um empurrãozinho dos juros mais baixos. Deixando a porta aberta para eventuais mudanças de cenário, o comunicado destacou que “os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas da inflação”.

As especulações voltam-se, portanto, para o que vai acontecer com a Selic nas duas últimas reuniões do ano, em outubro e dezembro, em pleno calor das eleições. Na pesquisa Focus divulgada esta semana, a Selic do fechamento do ano ainda continua parada em 6,5%, coerente com uma cotação do dólar de R$ 3,83 e com uma inflação de 4,09%. Para o fim de 2019, a projeção é de Selic a 8%.

A bem da verdade, até mesmo os juros futuros negociados nos últimos dias já vinham numa trajetória mais tranquila, refletindo uma certa trégua no cenário internacional, e uma leitura das pesquisas eleitorais que indicam a confirmação de uma das vagas no segundo turno para Jair Bolsonaro (PSL) — candidato que, segundo a crença dos agentes dos mercados, é adepto do liberalismo.

Os olhares gerais, agora, dirigem-se para outros números, além dos indicadores estritamente econômicos. Aqueles das intenções de voto dos candidatos à Presidência da República. A cada pesquisa, aumenta a ansiedade em relação a quem serão e como agirão os responsáveis por levar o barco da economia no novo governo. Depois de quatro reuniões do Copom com apostas majoritárias dos mercados e taxas de juros estacionada em 6,5% ao ano, não é improvável que as próximas duas, ainda em 2018, reservem novas emoções.