Bolsonomics e os mercados

Cida Damasco

03 Outubro 2018 | 13h43

Se alguém acordar no Brasil às vésperas da eleição, à moda dos “congelados” na novela da Globo, e olhar estritamente para o que está acontecendo nos mercados, poderia concluir que a economia está prestes a embarcar num período de absoluta prosperidade — e que as incertezas foram definitivamente afastadas.

Nesta quarta-feira, depois da divulgação das pesquisas do Ibope e do Datafolha, com o candidato Jair Bolsonaro (PSL) ganhando fôlego e Fernando Hadadd (PT) estacionando, a bolsa continua seu rali de valorização e o dólar, de desvalorização. Está certo que o cenário externo contribui para essa euforia, mas o fator determinante é mesmo a alta de Bolsonaro nas pesquisas de intenções de votos, a ponto de alimentar a hipótese de vitória no primeiro turno. Alta inclusive entre o eleitorado feminino — e isso depois das manifestações do fim de semana espalhadas por todo o País.

Mas o que é mesmo que os mercados estão vendo em Bolsonaro e, em particular, na economia de Bolsonaro? Clareza certamente não é. O guru Paulo Guedes — para quem Bolsonaro jogava a bola sempre que o assunto era economia — foi desautorizado pelo candidato, quando fez a incômoda revelação de que a volta da CPMF estava nos seus planos. O mesmo aconteceu com o vice falastrão, o general Hamilton Mourão, que se manifestou contra o 13º salário e o abono de férias. Aliás, por duas vezes, uma delas mesmo depois do “cala-boca” determinado pelo candidato.

E a pergunta que surge é uma só: se a economia do assessor e do vice não é exatamente a de Bolsonaro, qual será a dele? Difícil, senão impossível, projetar quais seriam as “bolsonomics”, ou seja, as linhas-mestras da política econômica do capitão.

Aqui e ali surgem indicações de que Bolsonaro aprova a reforma da Previdência de Temer. Guedes, por sinal, já se definiu a favor de uma proposta que inclui fixação de idade mínima para a aposentadoria, de 65 anos para homens e 62 para mulheres, com uma transição até 2042. Mas a turma de Bolsonaro no Congresso não teve, digamos, boa vontade com a proposta do Planalto.

Há notícias também de que a cúpula dos militares já prepara uma proposta de Previdência específica — ponto que ficou fora da reforma de Temer e recebeu críticas por sinalizar que o custo das necessárias mudanças previdenciárias não recairia sobre todos. Trata-se de uma iniciativa dos próprios militares, que seria encaminhada ao “futuro governo”, leia-se Bolsonaro.

Também se fala sobre um desejo de acelerar privatizações e concessões. Mais que isso, difícil extrair da equipe de campanha, até porque nem Paulo Guedes nem o próprio Bolsonaro têm frequentado debates e sabatinas.

Pelo menos aparentemente, os mercados estão indo na onda geral da campanha, caracterizada por um eleitorado dividido entre antibolsonaro e antiPT. E estão se posicionando exatamente no polo antiPT, que representaria o perigo de volta do intervencionismo e resistência às reformas. Quanto às inúmeras interrogações sobre a economia de Bolsonaro, o clima é de “deixa para lá”. Mais na frente, serão respondidas. Uma aposta dos mercados.