Candidatos adaptam propostas às alianças. Não era o contrário?

Cida Damasco

26 Julho 2018 | 12h00

É hora de recuos, piruetas, bravatas. Invertendo a ordem natural das coisas, os candidato à Presidência da República começam a ajeitar suas propostas para consolidar ou acertar alianças — ao contrário do que seria desejável, ou seja, definir primeiro seus programas de governo e em seguida buscar alianças para executá-los.

Abandonado pelo Centrão, para o qual havia oferecido até uma “flexibilização” na proposta de derrubada da reforma trabalhista, Ciro Gomes (PDT) elevou em alguns tons seu discurso, tudo para garantir seu espaço nas esquerdas. De concreto, o partido que restou para Ciro foi o PSB, que ainda tem defensores de candidatura própria, mas ele também estica o olho para eleitores inquietos com a demora do PT em reconhecer oficialmente que Lula é inelegível e apresentar enfim seu candidato. Metralhadora giratória, ameaçou enquadrar o Judiciário, disse que Lula só sai da prisão no seu governo, mas ao mesmo tempo jogou nas costas do petista a responsabilidade pelo acerto entre Alckmin e o Centrão.

Na economia, Ciro atacou de novo a privatização da Eletrobrás — não sai “nem a pau” –, o acordo da Embraer com a Boeing e, novidade, prometeu zerar o déficit fiscal em dois anos. Como? Em entrevista ao jornal Valor, Ciro falou em redução de isenções fiscais, taxação federal sobre heranças e criação de um imposto sobre transações financeiras acima de R$ 2 mil, a ser dividido com Estados e Municípios.

O tucano Geraldo Alckmin, que formalizou sua união com o Centrão nesta quinta-feira, começou a semana tentando explicar o inexplicável: a criação de uma contribuição alternativa, para substituir o imposto sindical obrigatório extinto pela reforma trabalhista, exigência do Solidariedade de Paulinho da Força para carimbar a parceria.

Fernando Haddad, um dos nomes cogitados para substituir Lula na candidatura à Presidência, em uma série de entrevistas concedidas nos últimos dias desfiou os principais pontos do programa do PT. E deu o que falar. Desta vez trata-se de um programa sem acenos ao chamado centro, muito ao contrário, com DNA claro de esquerda — deixando para trás aqueles tempos em que propostas mais à esquerda eram apresentadas em encontros do partido e logo em seguida minimizadas por suas lideranças, com o argumento de que “partido é partido, governo é governo”. Haddad anunciou, entre outros pontos, progressividade tributária para os bancos — conforme o spread cobrado do mercado –, aumento da carga de impostos sobre renda e patrimônio e redução na parte que recai sobre consumo, derrubada de vários pontos da reforma trabalhista, reforma da Previdência com foco no regime próprio, e sem capitalização. Sem contar a defesa da regulamentação e controle das empresas de comunicação, que tantos ruídos já causou e tantos ruídos ainda vai causar.

Marina, por sua vez, com números razoáveis nas pesquisas de intenção de voto mas sem partidos de destaque à disposição para acordos, por enquanto mantém um discurso mais genérico, como é seu estilo — exceção ao ataque frontal ao teto de gastos, feito pelos economistas de seu grupo, que provocou grandes reações principalmente nos mercados.

O mais preocupante é que, enquanto os candidatos se mexem para costurar “programas” adaptados às conveniências das alianças do momento, os indicadores de desempenho da economia brasileira deixam à mostra um quadro de persistente deterioração — que exige diagnóstico claro, terapias objetivas e disposição de aplicá-las logo na chegada ao Planalto.

O crescimento do PIB neste ano pode ficar abaixo de 1,5% — bem mais modesto do que os números que constam das revisões divulgadas nos últimos dias tanto pelo governo como pelo Fundo Monetário Internacional, respectivamente 1,6% e 1,8%. Já se sabe que o atual processo de retomada é o mais lento desde 1980 e, segundo estudo da FGV, a recessão só será superada em 2020. O desemprego é a face mais visível dessa crise — estão aí, para comprovar, as imagens de filas quilométricas de gente de idades e qualificações variadas, atrás de uma vaga num mercado com raras oportunidades e salários minguados. A situação fiscal também não dá trégua: apesar do aumento da arrecadação, o déficit não cede. E ninguém sabe o que será do teto de gastos, da regra de ouro, enfim dos parâmetros fiscais atualmente em vigor. Em consequência, fica difícil imaginar como conciliar as promessas de aceleração da retomada — para atender às justas aspirações da população — com os limites impostos pelo real estado das finanças públicas.