Cem dias cercados de incertezas

Cida Damasco

10 de abril de 2019 | 15h14

A pergunta é inevitável. Afinal, o que foi feito na economia nos 100 dias de governo Bolsonaro? Se a indagação for dirigida a empresários, executivos e analistas, a resposta será a mesma, acompanhada de elogios ou críticas: a reforma da Previdência, apontada como prioridade das prioridades durante toda a campanha eleitoral, tema não só dos incontáveis tuítes do presidente como das raríssimas entrevistas concedidas nesse período.

Depois de muitas idas e vindas, interrupções e desvios, a proposta enfim foi preparada, empacotada e entregue ao Congresso. E começa a ser desempacotada, ainda que no meio de uma enorme confusão. Mal ou bem, a equipe econômica conseguiu chegar a um projeto amarrado de reforma, mas a turma da política ainda não se acertou sobre quem fará e como fará a articulação com o Congresso, para que ela avance de fato.

Bolsonaro passou boa parte desses 100 dias, que costumam ser pacíficos, às turras com o Congresso, personificado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e nesse clima, é óbvio, não prosperou a formação de uma base parlamentar ampla e segura o suficiente para aprovar as iniciativas do Planalto. A ordem, agora, é um ensaio de entendimento, a substituição da ilusória negociação com bancadas pela real negociação com partidos — mas, pelo menos por enquanto, ninguém põe fé que a “conversão” de Bolsonaro a essa estratégia seja para valer.

A proposta da Nova Previdência deu seu primeiro passo na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) nesta terça-feira, dia 9, com a aprovação pelo relator, e caminha em breve para votação. A dúvida, a essas alturas, é muito menos se haverá alguma reforma, e muito mais qual a reforma que sobreviverá do texto original.

Nos mercados, a aposta já é de um ganho fiscal nas vizinhanças dos R$ 600 bilhões em 10 anos, bem abaixo, portanto, da marca de R$ 1 trilhão repetida com insistência pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Mesmo assim, um resultado considerado bastante razoável, apesar dos solavancos na bolsa e no câmbio, a cada passo em falso do governo ou a cada reação exacerbada do Congresso.

Porém, se a pergunta sobre os 100 dias do governo Bolsonaro for feita ao cidadãos comuns, a resposta provavelmente será bem diferente. A grande esperança da população concentrava-se, é óbvio, no comportamento da atividade econômica e, principalmente, do mercado de trabalho. E aí, sem dúvida, não houve melhora, embora seja justo reconhecer que os problemas foram herdados pelo governo Bolsonaro.

A questão, nesse caso, é de frustração de expectativas. Durante a campanha eleitoral, criou-se, como de costume, uma narrativa de que bastava mudar o governo que a solução viria. Como num passe de mágica. A confiança dos agentes econômicos se traduziria, imediatamente, na retomada de investimentos e, por tabela, na volta do emprego. Não foi o que se viu.

A atividade econômica empacou na baixa, as projeções do PIB para o ano não param de cair e já estão por volta de 1.5%, ameaçando repetir o pífio desempenho dos dois últimos anos. E o desemprego voltou a subir e já atinge mais de 13 milhões de pessoas. Mais do que qualquer número, porém, a imagem de filas quilométricas de trabalhadores em busca de emprego, no centro de São Paulo, escancara o tamanho e a persistência da crise.

Sob pressão, o governo já ensaia algumas providências, como a fixação do 13º salário para os beneficiários do Bolsa Família, ainda que em troca de um reajuste neste ano, e várias medidas na linha da desburocratização e simplificação — que podem até ser boas ideias, mas certamente têm alcance limitado em termos de agenda pró-crescimento. Claro que 100 dias são 100 dias e não se deve carregar nas expectativas para o período. Mas sinais também são sinais. E é nesse ponto que o governo termina seu “período de experiência” cercado de incertezas.