Cenas de um velho filme

Cida Damasco

28 Julho 2016 | 11h46

 

A manchete da edição impressa do Estadão de hoje parece retirada do acervo do jornal: Meirelles quer tirar poder do Planejamento sobre gastos. Para voltar ao tempo, basta substituir Meirelles pelo nome de outros ministros da Fazenda de governos passados. Afinal de contas, a rivalidade entre Fazenda e Planejamento é um clássico: antes relativa à formulação de política econômica, concentrou-se mais recentemente na questão do gasto público.

O próprio Meirelles já é mais do que experiente nessa estratégia do “estica=puxa” em seus oito anos de governo Lula: no Banco Central, e não na Fazenda, ele fazia as vezes do ministro “durão”, a quem cabia executar uma política de aperto monetário para contrabalançar a política mais flexível de gastos na Fazenda, sob o comando de Guido Mantega.

Dessa vez, porém, a situação é diferente. Temer não é Lula, que aparentava ter gosto em manejar essa divisão de papéis dentro do seu ministério. E sobretudo Dyogo Oliveira não é Mantega, cuja força vinha de suas raízes históricas no PT.

Bem menos importante e cercado até de uma certa desconfiança, como a reportagem mostra, Dyogo Oliveira, sobrevivente da equipe de Dilma Rousseff, herdou um ministério vitaminado, compatível com o tamanho de  Romero Jucá, figura decisiva em todo o processo de impeachment e varrido do governo logo em seguida, pelas denúncias da Lava Jato.

Será que o perigo é mesmo Dyogo de Oliveira? Será que as ameaças ao ajuste fiscal estão limitadas às autorizações de gastos acima dos recursos disponíveis, o que obrigaria a Fazenda a apelar para o chamado controle na boca do caixa? É dele, por exemplo, a responsabilidade por manter reajustes salariais mais robustos para algumas categorias e prometer outros tantos para uma nova turma?

O que não muda, nesse tipo de embate, são os políticos. Ao que tudo indica, a chamada ala política até vê com “bons olhos”  o contraponto entre Fazenda e Planejamento. Ainda não há sinais de uma decisão de Temer. O fato é que, se houver troca de guarda no Planejamento ou esvaziamento do ministério, algum jeito os políticos darão para manter sua influência.