China, EUA, Europa e Argentina. Tudo conspira contra o Brasil

Cida Damasco

20 de agosto de 2019 | 16h18

Bem no momento em que alguns analistas começavam ter esperança de uma leve melhora na atividade econômica, em razão da liberação das contas do FGTS e do PIS-Pasep, vem pela frente um complicador para a continuidade desse movimento. E um complicador e tanto: no cenário global, uma desaceleração das principais economias, e na vizinhança, uma nova crise na Argentina, em meio às incertezas criadas pela provável volta do kirchnerismo ao poder, nas eleições presidenciais de outubro.

Embora os alertas mais estridentes venham dos mercados, há grande apreensão com os estragos a serem produzidos nos setores produtivos. Não que a instabilidade das bolsas e das moedas seja menos importante ou isolada do desempenho da economia real. Ao contrário. A Bovespa, que no começo de agosto ainda sustentava o nível de 104 mil pontos, agora anda abaixo dos 100 mil. E, entre as ações que têm pesado sobre os pregões, estão justamente as de empresas de commodities, mais sensíveis ao risco de um crescimento medíocre e, pior ainda, ao de uma recessão.

O dólar, por sua vez, que rondou durante um bom tempo a marca de R$, 3,90, voltou a superar os R$ 4 — e, nesse caso, preocupa bastante a chamada volatilidade cambial, que simplesmente paralisa negócios e, em consequência, compromete exportações. Nesse quadro dominado por investidores arredios a assumir riscos, a saída de recursos estrangeiros da bolsa brasileira, desde o início do ano até o dia 15 de agosto, superou R$ 19 bilhões, a maior desde o início da série mensal, em 1996.

Quanto à crise da Argentina, que derrubou a votação do presidente Mauricio Macri nas eleições primárias do dia 11, certamente não deixará o Brasil ileso, como quer fazer acreditar o governo Bolsonaro. “Desde quando o Brasil precisa da Argentina para crescer?”, provocou há alguns dias o ministro da Economia, Paulo Guedes. A dependência pode não ser grande, mas também não é desprezível. Especialmente para setores como o automotivo.

A Argentina é o terceiro destino das exportações brasileiras, atrás da China e dos Estados Unidos, com uma participação de cerca de 5% no total — e, nas projeções do Itaú, se houver uma queda de 5% na produção industrial do país vizinho, o efeito, no final da linha, poderá ser de um corte de 0,2 ponto percentual no PIB brasileiro, praticamente zerando o acréscimo esperado com a entrada do dinheiro do FGTS.

Além disso, a médio e longo prazo o Brasil precisa muito do acordo do Mercosul com a União Europeia, que, dependendo das cotoveladas entre o governo Bolsonaro e um eventual governo Alberto Fernández, poderá balançar — não foi o próprio o ministro que festejou o fechamento desse acordo, há menos de dois meses?

O governo Bolsonaro age como se manejar uma crise internacional fosse tarefa de rotina.  Parece até que encara o perigo de tempestade como marolinha. Aquela à qual se referiu o ex-presidente Lula, que só não foi desmentido pelos fatos porque teve mais sorte do que juízo — e porque, verdade seja dita, pôs a máquina fiscal para funcionar e sustentar a demanda.

É inegável que o Brasil dispõe, hoje, de um volume respeitável de reservas, superior a US$ 388 bilhões, que pode ser utilizado para amortecer os sacolejos dos mercados — há poucos dias, inclusive, o Banco Central (BC) anunciou venda de dólares à vista, pela primeira vez em 10 anos. Mas não será tranquilo enfrentar os efeitos indesejáveis de uma economia mundial em ritmo mais lento e, por tabela, de um comércio internacional mais retraído.

As projeções para este ano e para o ano que vem estão em processo de encolhimento: segundo o FMI, o crescimento será de respectivamente 3,2% e 3,5% e, de acordo com o Banco Mundial, de 2,6% e 2,7%, Para o Itaú, deve ficar em 3,2% e 3%. Além disso, a expectativa de avanço do comércio internacional neste ano, que estava em 2,6%, vem sendo frustrada, conforme os indicadores da OMC.

Os primeiros cálculos dos efeitos das mudanças no cenário internacional sobre a economia brasileira são de algo como 0,1 a 0,2 ponto percentual a menos no Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 e algo ainda como 0,5 ponto a menos em 2020. Em uma situação mais folgada, esse “desconto” não seria inócuo, é claro, mas poderia ser absorvido sem grandes dificuldades. Mas o mesmo não se pode dizer de uma economia de novo à beira da recessão, com uma previsão de crescimento de apenas 0,8% neste ano e 2% no ano que vem — o Itaú fala em 0,8% e 1,7%. E ainda com bem mais do que uma cidade de São Paulo de desempregados  — 12,8 milhões, mais de um quarto procurando emprego ao menos há dois anos.

O que está no radar, no momento, é uma desaceleração da China, dos Estados Unidos, da chamada Zona do Euro e, na vizinhança, um novo mergulho da Argentina. Nada que faça prever um desastre no Brasil, mas uma combinação perversa de desestímulo a investidores, tanto nos mercados como nos setores produtivos. Exatamente aquele fator capaz de romper a paradeira da economia.

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