Cobertor curto

Cida Damasco

18 de julho de 2019 | 19h00

Quando tudo parecia resolvido e pronto para ser anunciado, veio mais um adiamento. A liberação de saques do FGTS e do PIS-Pasep, que o próprio Bolsonaro havia confirmado  para esta quinta-feira, durante a comemoração dos 200 dias de governo, ficou para a semana que vem. Simplesmente porque a medida ainda não estava redonda.

Detalhando, será preciso arbitrar uma disputa ferrenha pelo dinheiro do FGTS. Em busca de recursos para ativar o consumo, a equipe econômica do governo Bolsonaro, assim como no governo Temer, foi ao Fundo de Garantia — e, dessa vez, pôs foco também nas contas ativas.

Mas, como se poderia imaginar, o setor de construção civil chiou contra a medida, já que os depósitos no FGTS bancam investimentos em habitação, saneamento e outras obras de infraestrutura: segundo dados do setor imobiliário, cerca de 420 mil unidades deixariam de ser financiadas, caso os R$ 42 bilhões que poderiam ser sacados do FGTS fossem destinados de fato ao consumo. Sem contar o temor de que parte do dinheiro retirado do FGTS não chegue ao consumo, como é a intenção, e seja desviado para aplicações financeiras mais rentáveis.

O debate interno, agora, concentra-se na formatação de regras que garantam estímulos eficientes ao consumo sem esvaziar o FGTS. Há dúvidas se a medida em preparação será apenas uma reedição da adotada no governo anterior ou se irá mais longe, como foi previsto inicialmente. Analistas já faziam cálculos de um acréscimo de 0,2 a 0,3 ponto percentual no PIB projetado para o fechamento do ano, que por enquanto é de 0,8%.  E, dependendo do que for acertado, o efeito pode ser mais modesto.

Mais uma vez, trata-se de uma ação de lobbies, diriam muitos, É preciso considerar, no entanto, que num quadro de dinheiro curto como o atual, nada mais natural do que esse “puxa para cá, puxa para lá”. Seria de se admirar que o setor de construção civil deixasse escapar esses recursos sem pressionar o governo. No fundo, a disputa pelos depósitos no FGTS é entre consumo e investimento. Segundo os dados das Contas Nacionais, a construção tem uma participação superior a 50% nos investimentos — em comparação, por exemplo, com 35% das máquinas e equipamentos.

Sob impacto do desemprego e do endividamento dos consumidores, o PIB da construção teve uma queda de 2% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com os três meses anteriores, e de 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado — completando 20 quedas consecutivas. Nos últimos meses, as vendas de imóveis começaram a reagir, principalmente em razão da melhora de condições dos financiamentos, mas uma recuperação efetiva do setor ainda leva tempo.

De toda forma, o debate em torno da aplicação do dinheiro do FGTS pelo menos põe às claras a disposição do governo de encontrar saídas para ativar a economia a curto prazo — e não apenas ficar na dependência das mudanças estruturais, que não serão fáceis e nem rápidas.

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