Começa o jogo

Cida Damasco

26 de abril de 2017 | 12h09

Com alguns ajustes de última hora, a reforma trabalhista passou na comissão especial e vai a plenário da Câmara nesta quarta-feira. Dois dias antes da greve geral articulada pelas centrais sindicais e pelos movimentos de oposição. Não bastasse o peso específico das mudanças trabalhistas, trata-se, sem dúvida, de um teste para o que o governo e o mercado consideram a mãe de todas as reformas – ou seja, a Previdência.

Aparentemente, os destinos da reforma trabalhista já estariam traçados. Até porque, apesar de críticas contundentes de trabalhadores e das oposições, para ir em frente ela depende de maioria simples, ou seja, 50% mais 1 voto. Mas “aparentemente”, nesses casos, não é força de expressão: com ânimos cada vez mais acirrados, a disputa no plenário sempre pode reservar surpresas. Na reforma da Previdência, que exige maioria qualificada (três quintos, ou 308 votos), por ser emenda à Constituição, as incertezas são grandes. Há sinais fortes de que, por enquanto, não há apoio suficiente para garantir sua aprovação no plenário da Câmara.

Como não poderia deixar de ser, o governo joga pesado para tocar as reformas, principalmente a previdenciária. Uma derrota nessa frente, a essas alturas, seria desastroso para o Planalto, que tem vários ministros da casa investigados na Lava Jato e, pelo menos até segunda ordem, o mandato do próprio presidente amarrado ao de Dilma no TSE — e tem também, como principal trunfo, o empenho para repor a economia nos trilhos, principalmente via reformas, o que, segundo sua visão, permitiria uma retomada firme e consistente do crescimento, muito além do que se tem visto até agora.

O vaivém dos partidos, nas últimas horas, em relação à pauta do Planalto – o PSB saiu do fechamento de questão contra as mudanças para  o “cada um por si” – é uma mostra do quanto esse jogo ainda deve se prolongar. E tudo o que o governo, os empresários e o mercado têm é pressa.

O calendário fica cada vez mais apertado e mais contaminado pela campanha eleitoral. Pode até ser que boa parte do eleitorado, como de costume, nem se dê conta do que “seus” deputados e senadores fizeram “no verão passado”. Ou, em outras palavras, como eles votaram em pautas decisivas. Mas é preciso uma grande dose de “desprendimento” para votar sem levar em conta os prognósticos eleitorais imediatos. Não é da natureza dos políticos comprar briga com os eleitores. Por isso, o cabo-de-guerra agora para definir o prazo de votação da reforma da Previdência. Está um estica e puxa de fazer gosto. No momento, o interesse dos parlamentares alinhados com o Planalto é esticar o prazo para tentar conquistar mais adeptos, com a tese de que, após as mudanças no texto original, a reforma é outra. Haveria tempo também para alguma concessões adicionais, principalmente a segmentos do funcionalismo público. A temperatura dos protestos nesta sexta-feira vai ajudar a definir quem sai mais forte nesse jogo.

 

 

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