Clareza, confiança e retomada

Cida Damasco

24 Outubro 2018 | 16h14

Está por pouco. Empresários do setor produtivo aguardam definições mais claras sobre o que será da economia com Jair Bolsonaro (PSL), o candidato favorito à Presidência da República, para tocar em frente seus planos. Não é exatamente o caso dos investidores financeiros, que há bom tempo vêm sustentando suas apostas no que eles consideram ser opção preferencial de Bolsonaro pelo liberalismo. Tanto pelas declarações do candidato mas principalmente pelo empenho do candidato em colar sua imagem à de Paulo Guedes, responsável pela formulação de seu programa de governo e já confirmado para o comando de um superpoderoso Ministério da Economia.

Afinal de contas, qualquer decisão mais ousada por parte das empresas depende de segurança em relação ao cenário econômico a partir de 2019 — já que, em princípio, não comporta um ajuste de posições a curtíssimo prazo, a exemplo do que se faz nos mercados. A julgar pela evolução dos indicadores de confiança, o que se vê, por enquanto, ainda é uma posição de cautela das empresas, com algum alívio na comparação com meses atrás.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o índice de confiança do empresário do comércio subiu em outubro, após três meses consecutivos de queda, e chegou a 107,2  pontos — acima da chamada zona de indiferença, situada na marca dos 100 pontos. Em relação à indústria, os dois dados disponíveis ainda mostram direções diferentes. No indicador medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), outubro registrou alta, enquanto no índice do setor calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o mês foi de queda, para o menor nível desde setembro do ano passado.

Claro que o quadro atual induz a essa atitude das empresas. Embora os números do terceiro trimestre apontem para uma atividade econômica não tão ruim como se esperava até há pouco tempo, é inegável que esse desempenho ainda é insuficiente para se contar com uma retomada mais firme a prazos mais curtos.

O Monitor do PIB-FGV, por exemplo, apontou um crescimento da economia de 02% em agosto, em comparação com julho, e um avanço de 1,6% no trimestre encerrado em agosto, frente ao período imediatamente anterior — o que, na avaliação da FGV. deve ser entendido como “estabilidade no crescimento”. Divulgado poucos dias antes, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) vai na mesma linha, com altas de 0,47% em agosto e 1,5% no trimestre móvel terminado nesse mês.

Mesmo indicadores mais específicos confirmam que houve alguma melhora no desempenho da atividade econômica, ao contrário do que muitos observadores temiam. É o caso da arrecadação de impostos e contribuições federais, que encerrou setembro com um acréscimo real, descontada a inflação, de 0,35% sobre agosto, e de 0,26% sobre o mesmo mês do ano passado — registrando o maior valor para setembro desde 2015.

As empresas, contudo, necessitam de sinais mais claros para reforçar sua confiança, retomar projetos de investimento abandonados ou adiados — o que, em última instância, será a garantia de continuidade e consolidação da retomada. É preciso que o futuro governo seja suficientemente explícito em relação a seus objetivos e seus objetivos sejam amigáveis para as empresas. Mais ainda, é crucial que ele seja suficientemente forte e hábil para se acertar, mas não se submeter ao Congresso.