Contradições em dólar

Cida Damasco

13 Setembro 2016 | 17h20

Quando economistas falam em emprego, salários e inflação, o chamado público em geral sabe muito bem do que se trata. Pode ignorar os meandros da política econômica que levam a esses indicadores, pode se iludir quanto aos efeito momentâneos de alguma medida – leia-se, por exemplo, controle de preços e tarifas. Mas não tem dúvidas sobre onde está “o bem e o mal” nesses casos. Em outras palavras, o bom e o ruim para suas vidas, em particular – que é o que interessa, no final das contas.

No caso do dólar, porém, essa regra não vale. Antes de mais nada, são intrincadas as razões às quais se atribui o sobe-desce da moeda: elas oscilam entre o técnico e o impressionista, com o tal do mercado reagindo a qualquer dor de cabeça mais forte de algum integrante do governo, muitas vezes com o mesmo ímpeto com que responde a alguma medida importante adotada lá em Wall Street ou no Planalto.

Nesta terça-feira (13), por exemplo, o dólar está em alta, puxado pela queda dos preços internacionais do petróleo e, segundo algumas interpretações, também pelo cenário politico no Brasil, com os investidores temendo o impacto de uma eventual delação de Eduardo Cunha sobre o governo Temer. É, pode ser …

Além disso, entre leigos, sempre vem à cabeça uma pergunta mais direta. O dólar em alta é bom para que? Ou para quem?

As dúvidas sobre a trajetória do dólar — e as preocupações daí resultantes — voltaram a frequentar as conversas de economistas, empresários e cidadãos comuns nos últimos tempos. Depois de alcançar a casa dos R$ 4,00 no começo do ano, o dólar voltou para as proximidades de R$ 3,20/R$ 3,30, com o aumento da entrada de moedas no País. Não só pela confiança na evolução da economia brasileira no pós-impeachment, como muitos defendem, mas também por causa da diferença entre as taxas de juros oferecidas aqui e no exterior, que funciona como forte atrativo para o dinheiro em circulação nos mercados internacionais. Consequências desse movimento: a queda do dólar pode ter segurado um pouco a alta da inflação, mas a pequena reação que se observava nas exportações brasileiras, inclusive com a entrada de algumas pequenas e médias nessa atividade, ameaça se desfazer.

Empresários, especialmente da indústria, e economistas cruzam os dedos na torcida para que as cotações voltem a subir sem que seja necessário o Banco Central reforçar a compra de moedas no mercado. O custo fiscal de acumular reservas em moedas estrangeira não é muito bem visto num momento em que a ordem vai exatamente na direção contrária.

Em algumas parcelas da população, contudo, o interesse é o oposto: quando o dólar vai despencar? Bons tempos aqueles de US$ 1/R$ 1,50, em que viajar para Miami era mais barato do que ir para o Nordeste e desembarcar com três a quatro malas abarrotadas era prova de “faro” de consumidor.

Pelo que se vê, parece que tão cedo os bons tempos não estarão de volta nem para uma turma nem para outra. Para quem está preocupado com a competitividade dos produtos brasileiros, é bom lembrar que o câmbio depende da queda de juros e essa do ajuste fiscal. Tudo junto e… amarrado. Para quem está de olho em Miami, melhor se conformar com uma cotação mais ou menos parecida com a atual, aproveitar promoções de companhias aéreas e hotéis e, na volta, passar pelo sensor da Alfândega tranquilamente, sem grande peso nas bagagens. E na consciência.