Contradições nas moradias brasileiras

Cida Damasco

26 Abril 2018 | 16h17

A roleta eleitoral gira e, a cada dia, para em uma casa diferente. Candidato A vai se unir com candidato B, candidato C vai desistir, candidato D, que não é do ramo, está entrando na disputa. A volatilidade das candidaturas, a menos de seis meses das eleições, é quase igual à das cotações do dólar, nestes últimos dias. Haja falação sobre (boas) intenções de governo, em geral platitudes sobre os planos para corrigir as desigualdades que caracterizam o País.

Porém, quando se põe o foco nos indicadores da realidade social, dá para ver o tamanho do desafio que o futuro presidente vai enfrentar. Está bem, a economia melhorou, a recessão ficou para trás e o mercado de trabalho pelo menos não continuou a piorar. Tudo isso parece ainda insuficiente para retomar a trajetória de inclusão social.

Segundo dados extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (a chamada PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira, as condições de moradia da população mostraram uma mudança em 2017, que expressa os efeitos da crise econômica. Essa alteração aparece com clareza no sobe-e-desce de alguns indicadores. Vamos aos principais: 1) Aumentou o número de pessoas que moram “de favor”, com a família e/ou amigos — o número dos chamados imóveis cedidos aumentou cerca de 7%, de 5,6 milhões para cerca de 6 milhões, enquanto o número total de domicílios cresceu menos de 1%, para 69,8 milhões. 2) Aumentou o número de domicílios com 2 a 4 moradores, enquanto se reduziu o número de lares com uma só pessoa. 3) Caiu um pouco o número de imóveis ocupados pelos próprios donos, já pagos, e também o dos imóveis com algum morador ainda pagando, o que é interpretado como um sinal de maiores dificuldades de acesso ao financiamento imobiliário.

Em contrapartida, a mesma pesquisa reafirma a melhora no acesso dos domicílios brasileiros a bens de consumo, como máquinas de lavar e principalmente automóveis e motos. E constata um forte avanço no uso de celulares e no acesso à internet, especialmente via TV e celulares. São 92,6% de lares com pelo menos um celular e 70% com acesso á internet, em sintonia com as tendências globais de consumo.

Essa contradição é apenas uma mostra do padrão de consumo que está em vigor por aqui — reunindo características de primeiríssimo mundo com as de países menos desenvolvidos. Difícil, sem dúvida, aproximar esses dois mundos, mas os governos têm deixado a desejar nesse quesito. Atenção, candidatos: esperam-se propostas efetivas para unir essas duas pontas do País.