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Copom na medida

Cida Damasco

31 de maio de 2017 | 18h29

Esperava-se do Copom desta semana talvez um pouco mais do que esteja ao alcance dele. Uma redução da Selic na medida, capaz de mostrar que continua viva a estratégia de combate a recessão via política de juros, mas com a devida cautela para fazer frente às incertezas criadas pelo terremoto JBS. Isso no terreno estrito da economia. Lá na banda política do governo Temer, porém, tudo indica que havia ainda uma esperança adicional, de que, se o BC conseguisse cumprir à risca esse roteiro, reforçaria aquela tese de que mudar o presidente “logo agora que as coisas começam a melhorar na economia” não seria prudente. Tese que é invocada dia sim dia não nos círculos próximos ao Planalto, conforme se enroscam as negociações para o pós-Temer.

Um corte de 1 ponto na taxa básica de juros, a Selic, como o anunciado nesta quarta-feira, parece atender às expectativas – como dá a entender, inclusive, o comunicado do Copom, ao citar a inflação em queda, o cenário externo favorável para o Brasil, e como principal fator de risco “o aumento da incerteza sobre a velocidade do processo de reformas e ajustes da economia”. Nem uma aceleração, como se acreditava antes de cair a bomba da delação dos irmãos Batista, nem uma parada brusca, como muitos temiam no primeiro impacto da divulgação das conversas entre Joesley e Temer. Até porque a inflação continua baixa – o IPCA-15 ficou em 0,24% em maio, o menor para o mês desde 2000, com uma variação acumulada de 3,77% em 12 meses — apesar da ligeira piora das previsões do mercado para o ano captadas pela pesquisa Focus. E os indicadores da atividade econômica ainda comprovam um quadro de instabilidade – com o mais visível deles aos olhos da população em geral, o emprego, ainda sem recuperação efetiva.

Temer começou a semana numa gangorra: engendrou a troca dos ministros da Justiça e da Transparência, no que parecia ser uma esperta manobra para esticar sua sobrevida. Mas o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), apeado da Justiça, negou-se a mudar para a Transparência, e saiu dizendo que Temer foi pressionado por “trôpegos estrategistas”. Temer pediu e levou a separação entre seu inquérito no STF e o de Aécio Neves. Mas ainda há dúvidas se ficou amarrado ao ex-assessor especial, Rocha Loures (PMDB-PR), o homem da mala dos R$ 500 mil que era suplente de Serraglio, ou se o deputado perderá foro privilegiado. E ainda tem mais: Temer deve ser interrogado por escrito pela PF, em pleno exercício do cargo, e briga para não ter de se explicar sobre os aúdios, antes do resultado da perícia.

No meio desse furacão, portanto, nada como uma taxa de juros mais baixa e um PIB mais alto – como deve ser o divulgado nesta quinta-feira, referente ao primeiro trimestre. Não fosse a JBS, esta poderia ser uma semana especial para Temer, com dois dias seguidos de boas notícias para a economia. Agora, o que o Planalto pode esperar é, na melhor das hipóteses, tapar um pouco o sol com a peneira. Nas atuais circunstâncias, já é alguma coisa.

 

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