Davos–Brasília

Cida Damasco

24 de janeiro de 2019 | 12h24

Quem acreditava que a semana do presidente Jair Bolsonaro em Davos poderia funcionar como uma trégua ao governo acabou se frustrando. Bolsonaro volta ao Brasil nesta quinta-feira, 24, depois de simplesmente desperdiçar as oportunidades abertas no encontro com a comunidade financeira internacional. O tão falado discurso de apenas 6 minutos, com um rapidíssimo sobrevoo sobre o programa do governo, na terça-feira, seguido do inexplicável cancelamento do pronunciamento e da entrevista coletiva, no dia seguinte, surpreenderam e, pior, causaram má impressão entre os participantes do evento.

Guerra de versões nas redes sociais à parte, o fato é que a turma de Davos estava ávida por pistas mais claras sobre as mudanças na economia e só não saiu do encontro tão desinformada como entrou por causa do ministro Paulo Guedes. Mais uma vez o “posto Ipiranga” socorre o presidente. Guedes falou sobre a reforma da Previdência (a proposta pode proporcionar um ganho fiscal de R$ 1,3 trilhão em 10 anos), sobre privatizações (só neste ano devem ser arrecadados US$ 20 bilhões) e sobre a redução do Imposto de Renda para as empresas. Os mercados responderam com novos recordes.

Não se imaginava, é claro, que a proposta sobre a reforma da Previdência seria detalhada lá na Suíça, até porque tudo leva a crer que ela ainda não foi fechada. Muito menos que seria Bolsonaro o responsável por esse detalhamento, até porque não cabe mesmo ao presidente cumprir esse papel. Mas, convenhamos, seu discurso foi mais enxuto e genérico do que seria desejável e foi “complementado” pela fuga da entrevista coletiva.

Com Bolsonaro e o restante da comitiva ainda em Davos, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou um pacote de medidas a serem adotadas nos 100 dias do governo — algumas já antecipadas e nenhuma palavra sobre a Previdência. Talvez uma tentativa de mostrar que, em meio às atribulações em Davos e à crescente tensão com o caso Queiroz e suas ligações com o “garoto” Bolsonaro, o governo não está paralisado.

São 35 pontos que vão da abertura do cadastro de desempregados do Sine para as empresas privadas à criação de um comitê de combate à corrupção nos ministérios. Nenhum deles, contudo, teve a repercussão do decreto assinado nesta manhã pelo vice Hamilton Mourão, que amplia a possibilidade de classificação dos dados do governo como ultrassecretos,  sujeitos a sigilo de 25 anos.

Bom retorno, presidente.

Tendências: